A Casa Azul de Frida e Diego


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No agradável bairro de Coyoacán encontra-se um dos pontos turísticos mais frequentados da Cidade do México. O visitante já adivinha que está próximo da Casa Azul ao divisar a fila, que se forma desde a manhã nas ruas próximas da residência (uma boa dica é reservar os ingressos pela internet). Na chamada Casa Azul viveu e morreu a artista plástica Frida Kahlo (1907-1954), em companhia de Diego Rivera, o mais talentoso e prolífico muralista mexicano. Frida e Diego formaram um dos casais mais famosos (e tempestuosos) daquele tempo efervescente que lhes foi dado viver, nas primeiras décadas do século passado.

A casa, em si, já impressiona. Imponente, é toda pintada de azul e dá mostras da vida folgada da família da pintora. Construída em 1904, ocupa hoje um terreno de 1200 m2 – a construção principal e seus anexos têm 800 m2. Sofreu várias modificações ao longo do tempo. Tudo lá é grande, espaçoso, confortável e aprazível, em ambientes cercados de plantas e obras de arte.

Diego e Frida foram grandes colecionadores. Dessa forma, encontram-se em profusão pela casa exemplares da arte pré-colombiana. Além, é claro, de obras da própria Frida, algumas muito famosas, como Viva la Vida, Frida y la Cesárea, Retrato de mi padre Wilhem Kahlo, etc. No percurso da casa, o visitante passa por vários cômodos, inclusive pela cozinha e pela sala de jantar, onde Frida gostava de receber os amigos com pratos da culinária mexicana. Os rega-bofes tornaram-se famosos no meio artístico cult da Cidade do México dos anos loucos.

Vemos, também, o estúdio de Frida, com o dispositivo ortopédico que usava para manter a coluna ereta enquanto trabalhava. A montagem do museu é detalhista e vai de peças íntimas da proprietária ao medicamento à base de morfina que ela tomava em doses industriais para aliviar dores crônicas.

A vida de Frida foi trágica, do ponto de vista da saúde. À poliomielite da infância somou-se, na mocidade, o acidente de bonde no qual uma viga lhe atravessou o corpo e danificou para sempre sua coluna vertebral e órgãos internos. Como, com tudo isso, se manteve ativa, feliz, cheia de energia e criativa é um desses milagres da existência e, talvez, um dos motivos pelos quais ela tenha se tornado um dos ícones permanentes do nosso tão leviano tempo.

Depois de percorrer todo o acervo e ter se informado de todas as circunstâncias de existência tão sofrida quanto exuberante, o visitante fica particularmente emocionado ao contemplar uma obra solar como Viva la Vida!, uma singela fatia de melancia com essas palavras inscritas na polpa. Eis aí um dos segredos de Frida. Se ela, tão oprimida por um destino cruel, conseguia ser feliz e afirmar seu gosto de existir, por que deveríamos nos queixar ou sentir entediados? Frida é exemplo acabado de resistência diante da adversidade.

São essas as sensações e pensamentos que nos vêm ao percorrer o Museu Frida Kahlo. Porque, entre outras coisas, a Casa Azul não tem qualquer jeito de museu, no sentido depreciativo do termo. Não cheira a mofo. Pelo contrário: a casa pulsa de vida, como devia ser na agitação dos anos em que Frida e Diego lá viviam e recebiam gente como o surrealista francês André Breton, a fotógrafa e agitadora política ítalo-mexicana Tina Modotti, o muralista José Clemente Orozco, o cineasta soviético Sergei Eisenstei e o revolucionário Leon Trotski – este, personagem proscrito da União Soviética por Joseph Stálin e que, após longo exílio, encontrou no México novo lar, graças à intervenção de Frida e Diego, ambos comunistas.

Trotski, aliás, se hospedou durante muito tempo na Casa Azul, em companhia de sua esposa Natalia Sedova. Tornou-se amante de Frida antes de se mudar para outro endereço no mesmo bairro de Coyoacán, apenas alguns quarteirões distante da Casa Azul. Trotski transformou a nova residência em bunker, sofreu um primeiro atentado ao qual sobreviveu (comandado pelo stalinista Orozco), mas terminou assassinado pelo catalão Ramón Mercader, agente de Stálin. Sua casa também virou museu, embora em proporções muito mais modestas que as da residência de Frida.

A visita à Casa Azul é tanto uma experiência de fruição estética, em razão das obras lá existentes, como de confronto com todo esse período frenético da História, que foi aquele em que viveu a pintora. Cada objeto exposto fala um pouco do universo da artista, dos corpetes que usava para dar firmeza ao corpo doente (peças que adornava com símbolos como a foice e o martelo) aos retratos de suas admirações, em particular Lênin, Stalin e Mao Tsé-Tung. Para amenizar, a figura da deusa do cinema mexicano, Maria Félix, que dispunha de quarto próprio quando resolvia dormir na residência e se tornou amante de Diego Rivera (o muralista não perdoava ninguém do sexo oposto, nem mesmo a irmã de Frida, Cristina).

Diego sobreviveu três anos a Frida. Quando sentiu o fim próximo, mandou murar dois banheiros da residência e determinou que só fossem abertos 15 anos depois do seu desaparecimento. Cumprido o prazo, as paredes foram derrubadas e descobriu-se um tesouro de documentos, rascunhos e objetos íntimos de Frida, que hoje enriquecem a exposição. De acordo com os estudiosos, jogam novas luzes sobre a obra de Frida e sua personalidade controversa e forte. Por exemplo, foram encontrados estudos minuciosos sobre o desenvolvimento do feto humano, desenhados pela artista. Frida, como se sabe, não pôde ser mãe em virtude de seus problemas físicos, o que lhe causou grande frustração.

Foram encontrados também vários rascunhos de um texto sobre Rivera. A versão final era conhecida, mas sua autoria não. O ensaio “Retrato de Diego Rivera” chegou a ser atribuído ao escritor Alfonso Reys. Hoje se sabe que é de Frida e expressa admiração pelo companheiro. Os dois viviam como cão e gato. Separavam-se e voltavam. Traíam-se com outros parceiros. Casaram-se duas vezes. E amaram-se até o fim. A venerável Casa Azul é testemunha desse amor de perdição.

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