Tutto Visconti


Como poucos diretores (muito raros, na verdade), Luchino Visconti realiza a utopia do cinema como arte total. Última das grandes artes a surgir, filho do desenvolvimento tecnológico, o cinema vem depois de todas as outras e também as incorpora. Ou, pelo menos, poderia fazê-lo.

Parte de uma geração privilegiada, Visconti traz ao cinema o conhecimento profundo do teatro, da música, da ópera, da literatura, da pintura, da escultura, da arquitetura. Leva essa sólida formação humanista ao patamar político da geração que, surgida no após-guerra, volta-se para temas sociais com o neorrealismo.

Aliás, Visconti é tido como precursor do neorrealismo com Obsessão (1942), adaptação livre do romance noir de James Cain, O Destino Bate à Sua Porta. Com La Terra Trema, mix de ficção e documentário sobre os pescadores da Sicília, compõe um verdadeiro manifesto neorrealista, embora sua carreira vá tomar outros rumos nos anos seguintes.

Se a sedimentação artística é gigantesca na obra de Visconti, seu alcance temático também mostra-se bastante largo. Pode-se dizer que tenta abarcar o humano em sua totalidade. Não raro apoiado em obras literárias clássicas (de autores como Tomasi di Lampedusa, Albert Camus, Thomas Mann), aborda o drama humano pelo lado da angústia da velhice, da morte, da perda do protagonismo social, do amor, do sexo, do conflito, enfim, da luta pelo reconhecimento para usar uma expressão de Hegel.

O sentido humano dá-se dentro do quadro de referência histórico, pois o homem é sujeito da contingência histórica e, portanto, da política. Assim, uma obra como Rocco e seus Irmãos traz a saga da família Parondi, que vai da Lucânia a Milão em busca de melhores condições de vida e vê-se engolida pela cidade grande. Mas essa tragédia familiar e pessoal é vista dentro do contexto da “questão meridional”, aquela que dilacera a Itália no confronto de muitos matizes entre o Norte industrializado e o Sul subdesenvolvido.

Da mesma forma, em O Leopardo, há a dor da decadência física do Príncipe Salina (Burt Lancaster) e a consciência da proximidade da morte. Porém, a trama fala da finitude e da decadência não apenas de uma pessoa física, mas de uma classe social, substituída por outra em seu protagonismo. É dessa maneira que o enlace entre o nobre Tancredi (Alain Delon) e filha de ricaço Angelica (Claudia Cardinale) assinala o pacto servil selado pela aristocracia com a burguesia. Mudando tudo para que nada mude, como ensina Tancredi a seu tio, Salina.

Essa consciência histórica não exclui o mito, pois uma é parte do outro. Desde modo, com o extraordinário Vagas Estrelas da Ursa, Visconti recria o mito de Electra, encarnada agora numa mulher de beleza sobrenatural, Claudia Cardinale que retorna a Volterra para acertar contas com o irmão. Esta Electra moderna traz em si as contradições do ancestral desejo tabu, mas também as marcas contemporâneas do nazismo e da tragédia em dois atos (as duas Grandes Guerras) que prostrou (mas não liquidou) a civilização europeia.

Civilização europeia: ninguém a personificou melhor que este nobre comunista, que cedo perdeu a fé em sua classe social na maturidade desiludiu-se com a luta social e seus descaminhos (essa trajetória do desalento está em Violência e Paixão, seu penúltimo filme). Por isso ninguém filmou a decadência como Visconti. Com tanta classe, tanta beleza, profundidade e desespero. Assistir a seus filmes em cópias novas e numa sala ótima é como ler Proust, ouvir Beethoven, contemplar o teto da Capela Sistina.

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