Cine OP 2018: Tropicalismo em questão


OURO PRETO/MG

O Cine OP é um festival diferente. Um festival de pensamento, com algumas linhas bem nítidas em sua estrutura – preservação da memória fílmica, educação, história e reflexão. Este ano resolveu colocar em pauta o Tropicalismo.

Há boas razões para isso. Há a efeméride, claro, pois o disco manifesto Tropicália – Panis et Circenses saiu em 1968, 50 anos atrás. Mas, neste caso, não se trata de uma efeméride como outras que muitas vezes tratam de coisas culturalmente mortas e apenas celebram uma data redonda. O Tropicalismo, podemos dizer, está vivo e entre nós, embora possa ser datado como movimento cultural.

Há um dado curioso. Antes de vir ao Cine OP estive em outro festival, o Olhar de Cinema, em Curitiba. Nele, foi apresentado Sol Alegria, de Tavinho Teixeira, filme de estética bastante parecida à de alguns exemplares dos anos 1960 e 1970. Numa interpretação selvagem, pode-se dizer que replica, no absurdo Brasil de agora, uma forma de expressão surgida no surrealista Brasil de então.

Daí a atualidade do Tropicalismo e de suas afinidades como o Cinema Marginal, o teatro de agressão etc. Trata-se de uma pauta cultural complicada, à qual não faltam contradições. Uma delas é que se o Tropicalismo surge em oposição a uma estética de esquerda já desgastada e incapaz de enfrentar os desafios colocados pela ditadura, também flerta, namora e casa com o mercado e asfalta o caminho para a mercantilização das artes. Tudo isso é discutível e não deixou de ser debatido em inúmeras mesas que se formaram para tal.

E nem deixou de ser mencionado por quem não estava nas mesas e sim na plateia ou mesmo por quem frequentava o cinema do festival e não seus espaços formais de discussão. Houve quem se incomodasse com a prevalência dos baianos, em especial Gil e Caetano, na eclosão do Tropicalismo. Alguém lembrou que Caetano admite ser Terra em Transe, de Glauber Rocha, o principal fator da Tropicália. Que, aliás, era o nome de uma instalação de Hélio Oiticica. Teria sido o produtor Luiz Carlos Barreto quem sugeriu aplicar o título da obra ao movimento estético que estava fermentando e prestes a eclodir na cena cultural com toda a força.

O crítico e cineasta mineiro Geraldo Velloso lembrou num debate que a poderosa cena cultural de Salvador (descrita por Antonio Risério em seu livro A Avant-Garde Baiana) se alimentava da leitura da clássica Revista de Cinema, publicada em Minas Gerais. O cineasta Neville D’Almeida, parceiro de Oiticica, autor do filme underground Mangue Bangue e depois dos sucessos A Dama do Lotação e Os Sete Gatinhos, também discorda: “Havia efervescência no Brasil inteiro e não apenas entre os baianos”.

Enfim, esta é uma questão cultural ainda em aberto e repercutiu bastante na barroca Ouro Preto durante alguns dias nesse segmento chamado por eles de Vanguarda Tropical. Consequência lógica, a homenagem a uma das musas do cinema underground, ou marginal, ou maldito, ou de invenção, Maria Gladys e exibição de obras como Sem Essa, Aranha, de Rogério Sganzerla, Caveira My Friend, de Álvaro Guimarães, e O Demiurgo, de Jorge Mautner.

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