‘Morangos Silvestres’ para se despedir de Bergman


Hoje à noite, às 21h, o Cinesesc passa Morangos Silvestres, encerrando a repescagem da retrospectiva do mestre, cujo centenário se completou dia 14. Bergman nasceu no 14 juillet, dia a Revolução Francesa, o que deve ser um prognóstico. Mas o que importa mesmo é Morangos Silvestres.

Toda vez que sou convidado a dizer ou escrever qual o “meu” Bergman, fico entre Persona e Gritos e Sussurros. São, a meu ver, suas duas obras esteticamente mais ousadas. E aquelas em que Bergman sondava alguma coisa que ele próprio não sabia direito o que era. Duas obras-primas. Inquietantes. Misteriosas. Inesgotáveis.

Bem, mas se eu fosse responder qual o meu “Bergman de coração”, a resposta seria: Morangos Silvestres.

Por mais de uma razão. A começar pelo fato de que, até onde lembro, foi o meu primeiro Bergman.

Vi-o numa cópia surrada num cineclube no Bexiga. Eu gostava de cinema, tinha assistido a muitos filmes até então, nos cinemas e na TV, que era onde se podia ver filmes naquela época.

Quando vi Morangos Silvestres foi um impacto. Como, então, o cinema era capaz de chegar a esse ponto?, eu me perguntava incrédulo. (Tive a mesma reação ao ver Cidadão Kane, de Welles).

É um dos filmes mais humanistas de Bergman. A trajetória do dr. Isak Borg (iniciais IB – Ingmar Bergman) é a da secura e do egoísmo em direção a uma abertura possível em relação aos outros. Bergman sentia essa necessidade. E viu-se obrigado a elaborar essa questão através de um personagem muito mais velho do que ele era na época.

O velho médico vai receber um prêmio pelo seu Jubileu e, na última hora, decide ir não de avião mas dirigindo o próprio carro. Acompanha-o sua nora (Ingrid Thulin) e os dois vão conversando pela estrada. Dão carona a alguns jovens e recolhem um casal cheio de amargura. O espaçoso automóvel do dr. Borg converte-se quase num microcosmo, no qual tudo entra e tudo cabe.

São os dados da “realidade”, que vão se mesclando a sonhos, fantasias e recordações da infância do velho médico. É um processo radical de humanização no qual o protagonista enfrenta a si mesmo em várias vias e dimensões. Tanto no espaço das relações humanas reais como no das imaginadas e criadas pela nossa fantasia.

Num dos documentários sobre o cineasta, Bergman diz que o plano mais lindo que filmou em vida é um close do dr. Borg (Victor Sjöström, magnífico) contemplando a imagem dos seus pais no outro lado de uma península. O velho Borg recobre-se da figura infantil que foi um dia e “contempla” a imagem de pai e mãe há muito desaparecidos na poeira do tempo.

Sim, o tempo: Morangos Silvestres é um grande filme sobre o Tempo. O “tempus adax”, que tudo leva e a tudo devora. Essa a radical compreensão que transforma o impiedoso dr. Borg, já no outono da sua vida.

Ao refazer esse percurso de humanização, creio que Morangos Silvestres seja um filme insuperável.

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