Cine Ceará 2018: Cabros de Mierda


Com Cabros de Mierda, o diretor Gonzalo Justiniano prossegue o lento, pertinaz e aparentemente infindável trabalho de digestão da ditadura militar chilena (1973-1990). Precisaríamos discutir o que significa essa insistência, esse “eterno retorno” temático, e o que quer dizer o seu oposto, o relativo esquecimento em que períodos historicamente semelhantes caem em países como o Brasil.

Em todo caso, a história começa no presente, no Museu da Memória, em Santiago, erigido justamente para que não se esqueçam as vítimas do regime de Pinochet. Há dois personagens que se encontram, um homem já de meia idade e uma moça, filha de uma mulher que esse homem conheceu no passado.

Temos então um longo flashback no qual a história se instala no período médio da ditadura – em 1983. Época em que o golpe já tinha dez anos de duração, mas estava longe de enfraquecer. No entanto, as resistências internas se faziam sentir. Em particular em algumas comunidades, como a de La Victoria, na periferia de Santiago, retratada no filme.

É lá que chega um jovem missionário norte-americano, Samuel Thompson (Daniel Contesse) e instala-se numa casa dominada por mulheres, em especial Gladys (Nathalia Aragonese, em interpretação intensa), que lá vive com sua filha pequena. Lá também Samuel conhece o garoto Vladi (Elias Collado). Ele é que é o “cabro de mierda”, moleque do cão em tradução aproximada. O garoto é encantador e, com perguntas e frases agudas, põe em xeque a fé um tanto pueril do missionário.

A história pessoal do diretor Gonzalo Justiniano ajuda a entender o contexto da obra. Ele saiu do Chile com o golpe de Pinochet e passou a morar na França. Voltou em 1983, quando o golpe completava 10 anos para fazer um documentário a pedido da TV francesa. Religiosos franceses haviam ido ao Chile e se instalaram nessas comunidades para protegê-las. ERam perseguidos pelo regime e um deles foi morto. Parte do material foi confiscado e parte se salvou. Dessa parte, algumas inserções entram em Cabro de Mierda, o que lhe confere emoção e autenticidade.

Na conversa com os jornalistas, Justiniano falou sobre a insistência sobre o tema da ditadura, que ele faz questão de classificar como “civil-militar”. A exemplo do que houve no Brasil, a ditadura não foi iniciativa única dos militares, mas contou com o apoio, conivência e iniciativa de setores civis, entre eles, empresários, parte da classe média, mídia e parte do sistema judiciário.

“Há gente que tem muito medo da memória. Dizem para falarmos de outros assuntos, olhar para o futuro e não do passado”, diz. Respondo assim: “O problema é de vocês, esta foi minha vida, e a da minha geração. Temos o dever de resgatar esse momento de memória e incentivar a outros artistas e ajudar a reconstruir o vivido. Para mim, essa película não é política, é policial, criminosa. Ela só foi possível pela invenção do inimigo interno, conforme ensinavam os oficiais americanos na Escola das Américas, no Panamá. Gladys, como gente comum, acabou por sofrer com a pior parte da ditadura. Não podemos esquecer a História”.

Fala também sobre dosar denúncia e emoção, humor com cenas mais incisivas de violência contra os direitos humanos. “É bom contar a história através da emoção. Transmite algo que se torna de maior alcance que a mera racionalidade. Os franceses têm a expressão “savoir par coeur”, quando algo está memorizado. É a memória pelo coração, pela emoção”, diz.

Nesse sentido, o filme atinge uma mescla bem interessante. O espectador é convidado a se emocionar com a vivacidade do menino Vladi, mas também com a valentia de Gladys e seu impulso vital, expresso através da sensualidade. Também pode ser tocante acompanhar a curva dramática de Samuel e sua descoberta de que o mundo em que pregava estava mais distante de Deus do que ele poderia supor.

Há então esse diálogo com obras tais como Machuca, de Andrés Wood, na disposição de olhar uma realidade ingrata pelo ponto de vista infantil. Mas também a dolorosa descoberta da tragédia histórica pelo olhar estrangeiro, que remete ao clássico Missing, de Costa-Gavras, também ambientado na ditadura chilena.

O lirismo de algumas cenas é quebrado por outras, com imagens duras de violência contra pessoas indefesas. Um crítico argumentou que o filme era pouco sutil nesse sentido e Justiniano respondeu que, pelo que conhecia sobre o assunto, havia sido até tímido. “Conheço relatos de atrocidades que não poderia jamais colocar na tela sob pena de afastar os espectadores”, diz. “Digo que este não é filme de denúncia, mas policial, criminal, falando de criminosos e assassinos”, diz. “Não queria fazer um filme politicamente correto, com alusões e imagens atenuadas para não ofender o bom gosto da crítica”, diz.

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