Eu Acuso


Quem passasse de madrugada pela rua de Paris onde morava Émile Zola veria as luzes do seu quarto acesas. O escritor trabalhava até tarde da noite. Escrevia o manifesto a ser publicado no jornal L’Aurore com o título de J’accuse (Eu acuso), panfleto em favor do capitão Alfred Dreyfus, injustamente condenado por traição. A edição de 300 mil exemplares do Aurore, do dia 13 de janeiro de 1898, esgotou-se em poucas horas. O texto despertou consciências e mobilizou a opinião pública francesa. O caso rumoroso repercutiu pelo mundo.

A luz acesa na casa de Zola era, como disse alguém, “a consciência da França que velava”. A França iluminista, pátria da liberdade, da igualdade e da fraternidade, não poderia tolerar tão flagrante injustiça. Dreyfuss fora condenado por ser judeu, não por ser culpado de entregar segredos militares aos alemães.

Como Zola acusava nominalmente todos os envolvidos no caso contra Dreyfuss, acabou ele próprio sendo processado e condenado, tendo de se exilar na Inglaterra.

Anos mais tarde, em 1906, Dreyfus foi reabilitado pela Presidência da República Francesa, mas o Exército continuou a afirmar sua culpa. Ou, pelo menos, a suspeita que sobre ele pesava.

Em 1908, Dreyfus sofreu um atentado a bala e foi ferido no braço durante a cerimônia de transferência das cinzas de Zola ao Panteão, o túmulo das grandes figuras da França. O autor do atentado foi absolvido. Dreyfus morreu em 1935. Zola entrou para a História da Literatura, mas também a dos Direitos Humanos.

Lembro desse caso antigo para perguntar se haverá entre nós alguém com a força moral de um Émile Zola para escrever um Eu Acuso e denunciar condenações tão injustas e fora de proporção como as que estamos assistindo.

Ou permaneceremos recolhidos ao nosso silêncio e nos condenaremos a uma justa irrelevância?

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