Quem são os estranhos que vivem entre nós?


Depois de Corra!, que lhe valeu um Oscar de roteiro, Jordan Peele volta com outro terror de conotações sociais. Adelaide (Lupita Nyong’o) retorna à casa de verão de sua infância com o marido e dois filhos. Lá a família se depara com quatro personagens clones deles mesmos, embora com sinais trocados. Clara alusão ao mal-estar social que levou à eleição de Donald Trump, semelhante à que se passa no Brasil.

Esboçada em poucas linhas, a sinopse não dá conta da impressão causada pelo filme. Logo na abertura, vemos Peele como um refinado criador de climas e inquietações. Nada, no entanto, no “texto”, explica essa perturbação. Trata-se apenas de uma garota num parque de diversões, em 1986, acompanhada pelo pai. Com uma maçã do amor na mão, a criança se afasta para explorar o ambiente. Assim fazem as crianças nessa arte de se perder que é a infância.

Nada é muito estranho, nem mesmo quando ela entra num desses brinquedos de parquinho de diversões, uma sala de espelhos. Uma inscrição diz que lá “você se encontra consigo mesmo”. E a experiência que a menina tem lá dentro é essa, a de um duplo de si. Uma imagem no espelho. Mas, como, se ela olha a outra de frente e esta aparece de costas?

Enfim, esse prólogo é marcado pela construção de uma situação inquietante, devido à maneira como a câmera espreita o ambiente, segue as pessoas, e uma trilha sonora quase subliminar começa a mexer com os nervos do espectador.

Mas depois passa-se para o tempo presente e a menina de 1986 agora é uma jovem mãe de família. No carro, junto do marido e o casal de filhos, dirige-se para a casa de veraneio. Conhecemos esse ambiente familiar em registro natural, a própria imagem da normalidade e da estabilidade. Qualidades do equilíbrio, claro, que serão quebradas de maneira sistemática. Isso acontece quando outra família igualzinha – pai, mãe, dois filhos – aparecer na varanda da casa, sem dizer palavra.

Sem avançar o sinal do spoiler, pode-se dizer que o filme tem na parte de ação seu feitio mais convencional. Mas é só. O resto, ou melhor, o todo, é bastante inesperado e inquietante.

Jordan Peele joga com o tema do duplo, o que não chega a ser propriamente uma novidade, já que fascina os criadores há muito. Das lendas germânicas do Doppelgänger a Dostoievski e Borges, passando por Stevenson, muitos escritores a ele dedicaram algumas de suas melhores páginas. Quem é esse outro de mim, que pode ser fascinante e assustador ao mesmo tempo? Que verdade ele guarda sobre mim, que eu mesmo não tenho coragem de encarar?

A originalidade de Peele consiste em construir essa espécie de “outro” numa dimensão social, facilmente assimilável àqueles ocupantes do lado sombrio da sociedade. Os que ficam com a pior fatia, ou com fatia alguma, e se multiplicam na sombra (ou no submundo), alimentados de sofrimento e ressentimento. Tudo vem à tona, como a lava de um vulcão que sobe à superfície.

E vem num momento em que, em nossa perplexidade, refletimos sobre o poder de sedução de personalidades tão delirantes e violentas, como Trump e outros, capazes de catalisar de forma tão perfeita esse sentimento complexo que é o ressentimento.

Daí esse sentimento de estranheza que temos diante de nossos semelhantes, de gente que anda na rua e se parece conosco. “Como foram capazes de cometer tamanha sandice?” O que se pode esperar depois disso? Teremos coragem de virar nossas costas para eles, especialmente se desconfiamos que têm uma faca nas mãos?

Essa, a arte da coisa. De repente o mundo, de familiar, torna-se estranho e hostil. Este nosso mundo. Jordan Peele constrói uma obra que simboliza essa estranheza e dá a ela um toque adicional de inquietude e cunho político com o twist final, no que ele tem de grandioso e patético. Afinal, Nós (US) é também US (United States).

O horror se adensa e cresce com o desfecho da história. Tal como o nosso horror atual, que parece não ter fim e muito menos final feliz. Happy ending, afinal, é para trouxas.

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