Soldados da Borracha: os heróis anônimos do Brasil


A borracha e não a pólvora era o material imprescindível no esforço de guerra dos Aliados contra os nazistas. E quem podia fornecê-lo? O Brasil, com seus seringais amazônicos. O látex estava lá. Faltava mão de obra para colhê-lo. Ao fazer a opção pelo lado aliado, o governo de Getúlio Vargas organizou um mutirão gigante em busca da preciosa matéria-prima. Esta saga é descrita no documentário Soldados da Borracha, do diretor cearense Wolney Oliveira, em competição nacional do festival É Tudo Verdade.

O doc conta com alguns trunfos: a minuciosa pesquisa de imagens, o cuidado com a contextualização dos fatos e, sobretudo, a força do depoimento dos sobreviventes da saga, hoje idosos ainda na luta pela justa indenização prometida e devida pelo Estado nos anos 1940.

O contexto: em sua política pendular de apoio entre Alemanha e Estados Unidos, Getúlio Vargas por fim se decidiu pelos Aliados quando submarinos alemães torpedearam navios brasileiros. O Brasil declarou guerra ao Eixo e a saga da borracha foi sua moeda de troca, pois o material era necessário para a indústria bélica norte-americana. De acordo com fontes consultadas pelo documentário, para compensar a torrente de dólares despejada pelos EUA no Brasil, a borracha era moeda ainda mais forte que o envio de tropas da FEB (Força Expedicionária Brasileira) para combater na Itália. À luz do governo, os soldados da borracha e os pracinhas teriam o mesmo status. Mas isso não foi cumprido.

Cerca de 60 mil nordestinos foram levados para a região amazônica atrás do látex. Enfrentaram a odisseia de uma viagem penosa, má alimentação, as doenças tropicais, um trabalho insano e a exploração econômica nas fazendas. Era um verdadeiro trabalho escravo. Metade deles morreu antes de voltar para casa. Alguns desses sobreviventes ainda esperam pelo reconhecimento e o pagamento de indenizações. Estas vieram sob a forma do que eles consideram como “esmola”: 25 mil reais, quando a quantia pedida pelos advogados seria da ordem de 800 mil.

O filme mostra de maneira clara: seja combatendo no inverno italiano, seja colhendo látex no calor infernal da Amazônia, o povo humilde, como sempre, foi usado como bucha de canhão do Estado brasileiro.

Essa história triste de injustiça é pontuada por alívios cômicos. Não que o riso seja buscado pelo diretor de maneira artificial. O humor entra com naturalidade na fala desses velhinhos e velhinhas maravilhosos, capazes de, em meio ao sofrimento, recordar histórias saborosas e rir-se da própria desgraça. São o que existe de melhor no Brasil.

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