Diz a Ela que me Viu Chorar


Um pequeno relato da maratona de ontem, com o primeiro destaque para o brasileiro Diz a Ela que me Viu Chorar, de Maíra Bühler. Trata-se de um documentário de observação de personagens vivendo em meio a um programa de redução de danos provocados pelo crack. Esse programa foi instituído pela prefeitura de São Paulo em 2016 e “descontinuado” na gestão posterior, que por certo considera essas medidas paliativas mero incentivo ao vício.

Bem, a câmera entra no ambiente e assiste aos personagens em seus dramas, alegrias e conflitos do cotidiano. Depois da sessão, a diretora e sua equipe disseram ter passado pelo menos um mês frequentando o ambiente, um hotel no centro da cidade, apenas para que os personagens se habituassem à presença estranha.

Essa busca de naturalidade não tira a aparência de sequências encenadas para as câmeras. Lógico, o cinema direto, a chamada “mosca na parede” que ninguém percebe, é contaminado por uma utopia da neutralidade. A presença de uma câmera, por discreta que seja, e de uma equipe, por solidária que seja, provocam modificações no ambiente e no comportamento das pessoas. Esta é uma verdade quântica: não se observa um objeto sem alterá-lo.

Mesmo assim, o filme provoca comoção (e entendimento) sobre aquelas pessoas em situação peculiar de vida e expectativas. Há momentos de grande humanidade, e espontaneidade, que transmitem vibração ao filme. Presenças femininas fortes, personagens cativantes e uma atmosfera pesada, quebrada de tempos em tempos pela música, como expressão artística e fator de alívio, seduzem o espectador.

Seria preciso destacar a questão política implícita neste doc e que diz respeito à redução de danos. Esta implica que se considerem preciosas as vidas humanas envolvidas e se tente preservá-las ao máximo, levando em conta a liberdade e a autonomia dos indivíduos. O ponto de vista contrário prega uma abstinência forçada e radical; entende que os danos causados não devem ser minimizados pois representam fator dissuasivo, quando não um merecido “castigo” aos usuários. É a proposta medieval que prevalece hoje em dia face no contexto de retrocesso geral do País.

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