Bacurau é o símbolo do que nos falta

Não me causou a menor surpresa o surgimento de críticas conservadoras a Bacurau. Logo que vi o filme, postei um textinho em minha página do Facebook:

Tenho a convicção íntima de que ‘Bacurau’ não é palatável, mesmo para parte da intelligentsia nativa, inclusive cinematográfica, porque ousa discutir algo bastante incômodo para nossa cultura: o uso da justa violência do oprimido contra a injusta violência do opressor. Se o Vietnã fosse aqui, talvez os Estados Unidos tivessem ganhado a guerra…sem disparar um único tiro. A não ser que resolvessem atacar Bacurau.

Claro que todo mundo tem direito de gostar ou não de um filme. Isso está fora de discussão. No entanto, li (com atenção) as críticas contrárias e elas não me convenceram. Sempre ficou a impressão de que algo havia incomodado no filme e, como não fica bem falar mal apenas baseado em implicância pessoal, e como mesmo agora há um custo em assumir posições abertamente conservadoras, o jeito era disfarçar o desagrado sob um palavrório tanto pomposo quanto inconsistente.

No entanto, tudo parece bastante claro no filme de Kléber Mendonça & Dornelles. Noves fora opções estéticas (excelentes, no meu modo de ver), há no centro nervoso do filme uma ideia pulsante – a recusa em morrer por parte dos habitantes de Bacurau.

Os punhos de renda liberais ficam amarrotados ao notar que os habitantes de Bacurau – espremidos entre os caçadores de mortes vindos do exterior, os brasileiros colaboracionistas do massacre e o político local que vendera a população como carne de caça – teimam em sobreviver. Usando as armas que, literalmente, têm às mãos e fazendo as alianças que forem necessárias.

Queriam o quê? Que pedissem gentilmente aos assassinos para que voltassem às suas casas e revisassem seus conceitos, como se diz hoje? Ou que se deixassem abater sem opor a menor resistência? Dadas as condições expostas na ficção, a quem iriam recorrer? À polícia, ao juiz de paz, ao pároco? Os habitantes de Bacurau, cidade que sumira do mapa, só tinham a si mesmos se quisessem sobreviver. É disso que o filme fala, assim como falam vários westerns ou filmes de samurai. Em terra sem lei, apenas a violência do ocupado se contrapõe à violência do ocupante.

Não por acaso, em entrevistas, a dupla de cineastas tem citado como inspiração a Guerra do Vietnã, a resistência do povo vietnamita ao invasor norte-americano. Muitas são as aproximações. A desproporção das forças e da tecnologia empregadas, o poder econômico de uns e a pobreza de outros. Mas, também, a coragem, a união e a tática de guerrilhas para vencer o exército convencional. A população escondida em buracos e o uso das armas disponíveis, sejam quais forem e no estado em que estiverem.

Poderiam ter invocado o caso de Chiapas, no México, em que a cruel repressão aos camponeses, pelo sanguinário General Hernandez Toledo, provocou efeito contrário. Em desespero contra a brutalidade policial, os camponeses resolvem se armar e surge o exército Zapatista, tendo o subcomandante Marcos como porta-voz.

O desespero, a miséria, o Estado opressor levam às vezes à consagração de bandidos que, pelo menos no imaginário popular, não se curvam ao poder injusto. São os casos de Robin Hood, Salvatore Giuliano e, entre nós, o mais famoso, Virgulino Ferreira, Lampião. “Bandidos sociais”, na precisa definição do historiador Eric Hobsbawm.

A resistência no entanto causa horror no Brasil, é algo de inassimilável ao pensamento formalista legal.Jango deixou o país quando poderia ter evitado o golpe em 1964, mas temia o derramamento de sangue e foi se refugiar no Uruguai. Veio o regime autoritário e durou 21 anos. Na bela imagem que temos de nós, mesmo quando se luta contra ditaduras deve-se agir com elegância, mãos limpas e sintaxe correta. Carlos Marighella, assassinado há quase 50 anos (em 20 de novembro de 1969), ainda é um fantasma a assombrar a má-consciência nacional. Não espanta que o filme dirigido por Wagner Moura, com seu Jorge no papel principal, enfrente tantas dificuldades para ser lançado. Teve adiada sua estreia, que se realizaria na efeméride de 50 anos da morte do guerrilheiro. Não se fala em nova data. Um homem que enfrenta a ditadura, de arma na mão, e preto ainda por cima, é demais para a hipócrita consciência nacional brasileira. Um escândalo.

Na verdade, Bacurau é uma alegoria do que não existe no Brasil. Os caçadores de cabeça estão entre nós e não lhes opomos qualquer resistência séria. Esperamos que sumam como por milagre, e que sejamos poupados.

Bacurau simboliza o que nos falta.

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