A arte da crítica (14): Bacurau e o mito da isenção crítica

De certa forma, volto a assunto já tratado no post nº 12, no qual discutia o que fazer quando o artista ou sua obra é seu oposto ideológico. Em pauta, naquele texto, a ilusória questão da
neutralidade.

A razão do retorno é o surgimento de um caso especial, fora da curva no território cinematográfico brasileiro: a imensa repercussão que está tendo o filme Bacurau, de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles.

Como sabem, ele venceu o Prêmio do Júri no Festival de Cannes. Aqui estreou, sob forte apoio da crítica, que de maneira geral gostou desse faroeste caboclo sobre uma comunidade transformada em reserva de caça de estrangeiros, e que se defende, pegando em armas.

Eu, que já havia escrito sobre Bacurau uma vez, durante o Festival de Gramado, há pouco voltei a fazê-lo, muito motivado pelo fato de terem aparecido as primeiras críticas negativas ao filme. Li-as e me pareceram frutos menos de uma reflexão cinematográfica consistente que de um forte componente ideológico.

Para resumir, e não vou voltar ao caso, (quem quiser, dê uma pesquisada na web), me parecia que a questão da luta armada dos resistentes de Bacurau era vista com certa revolta ou condescendência por parte dos autores. Escrevi contra isso.

Certa vez uma amiga me disse que a repercussão de um filme só pode ser avaliada para valer quando ele ultrapassa os limites da reportagem e da crítica cinematográficas. Ou seja, quando sai do nosso mundinho e ganha textos (contra ou a favor) de autores ou colunistas que, em geral, se ocupam de outros assuntos ou de temas gerais. Gente não especializada em cinema.

Ora, só esta semana, Bacurau foi citado na coluna do psicanalista Contardo Caligaris, que o amou, e do colunista econômico Samuel Pessôa, que o odiou. Aliás, Pessôa é crítico contumaz da obra de Kléber. Escreveu também sobre o longa anterior, Aquarius, e criticou a personagem principal, Clara (Sonia Braga), chamando-a de egoísta por se obstinar em manter seu apartamento e não vendê-lo à incorporadora que quer demolir o velho prédio e construir um espigão no terreno. Entrave ao progresso. Agora, (“Em Bacurau, o inferno são os outros”, Folha, 15 de setembro de 2019), ataca Bacurau porque não entende como os habitantes da cidadezinha pagam as contas. Acusa a esquerda de haver rebaixado sua linha de raciocínio ao ser desalojada do poder. Insinua que ela está perplexa com perda de influência das comunidades eclesiais de base para as igrejas evangélicas nas periferias e que os pobres de fato anseiam por uma vida de consumo, daí o sucesso dos evangélicos e da tal “teologia da prosperidade”, que teria sepultado a antiga teologia da libertação (Há uma certa razão nisso, mas que precisaria ser matizada).

Ou seja, tanto a teimosia de Clara quanto a insistência da turma de Bacurau em continuar a existir, e existir à sua maneira, seriam afrontas à realidade do mundo atual. Que mundo é esse? O do
capitalismo sem limites e sem fronteiras, que já não enfrenta contrapontos depois da queda do campo socialista.

O debate poderia se travar aí, no âmbito da história e da economia. Mas prefiro deixá-lo no campo da estética, pelo menos aqui.

Há nesse tipo de argumentação uma certa dificuldade em compreender a natureza da arte e sua vocação em funcionar a contrapelo da sociedade, do mainstream. Poucas vezes a arte adesista tem alguma relevância. Em geral, é de oposição ao status quo. E oposição radical. Quando adere, bajula governos e se coloca ao lado dos donos do dinheiro e do poder perde sua razão de ser. Se, como sugere o colunista, Clara vendesse seu apartamento e aumentasse sua poupança para a velhice não haveria filme. Se a turma de Bacurau se deixasse massacrar pelos assassinos gringos, por escrúpulos em pegar em armas para se defender, talvez houvesse filme. Mas um filme pior, lacrimoso, vitimista e sem 1% da potência que de fato Bacurau tem.

De resto, acho muito bom quando uma obra suscita polêmica e
interpretações variadas nos, digamos assim, formadores de opinião. Claro que, no fundo, ao lermos esses textos, ficamos sabendo mais sobre seus autores do que sobre o filme em si. Eles poderiam dizer o mesmo de mim e de meus textos? Com certeza.

Não existe assim uma crítica ideologicamente neutra? Talvez, em determinadas circunstâncias, possamos nos aproximar desse, hesito em chamá-lo assim, “ideal”. Ao analisar filmes descompromissados com o mundo real, ou obras consagradas do passado, ou em tempos calmos e prósperos, talvez pudéssemos adotar o que em filosofia se chama de “o ponto de vista de Sírius”. Isto é, a perspectiva do observador postado em uma estrela distante, que vê sem qualquer intervenção dos sentimentos, com toda a objetidade, a tragicomédia humana que se desenvolve neste mundo sublunar. “Au-dessus de la mêlée”, como dizem os franceses.Para nós, imersos em nossa frágil condição, e ainda mais sob a tempestade histórica do presente, essa isenção me parece impossível. É inevitável tomar partido.

No entanto, mesmo assim, seria bom prestar atenção às propostas estéticas, à chamada “fatura da obra”. Por exemplo, na abertura de Bacurau vê-se ao longe o planeta Terra, a câmera vai se aproximando, sob o som de Não Identificado, com Gal Costa. À medida em que passamos a distinguir as coisas, vemos um caminhão que corre em ziguezague por uma estrada precária. Por que um veículo roda desse jeito? Quem já andou por uma estrada dessas, sabe: é para se desviar da buraqueira. O veículo vai também colidindo com objetos. Caixas? Não: caixões de defunto. O que diz esse plano? Baixamos da esfera cósmica, chegamos ao chão comezinho de uma realidade pobre, poeirenta, seca, e nada idealizada, ao contrário do que afirmam os detratores. Já entramos no filme sob o signo da morte, impressão que vai se alargando. Quando a dupla de personagens chega a Bacurau, há o enterro da matriarca. E então se unem a morte e um sentimento de comunidade. Não se trata de abstração ou idealização. Seres humanos também podem viver em comunidade, com a sensação de pertencimento a um local e a um grupo social. Não estão condenadas a serem indivíduos isolados, em competição feroz entre si como acreditam os neoliberais, segundo Thatcher. Tudo isso nos é mostrado sem discursos, quase unicamente pela força das imagens, do elenco, da maneira como tudo é montado.

Convém prestar atenção a esses detalhes porque, em cinema, as ideias vêm através desse tipo de construção em imagens e sons. Por aí se filtra o ponto de vista do autor e é por este caminho que o cinema “pensa”.

(Já havia terminado esse texto quando dei com a coluna de Demétrio Magnoli, também na Folha. O título: “Bacurau é testemunho da extinção de vida inteligente na esquerda brasileira. Não existe raciocínio. A técnica é parafrasear o enredo para colocá-lo em ridículo. Tipo “Eles ainda falam em imperialismo americano, isso depois da queda do Muro, imaginem”. Claro, amigão, os americanos não intervém em lugar nenhum do mundo a não ser para fazer o bem às populações locais, todos sabemos disso, não é? A conclusão é a indigência de sempre: a esquerda atrasada seria o espelho simétrico da ultra-direita agora no poder.

Ex-trotskistas arrependidos se tornam os melhores quadros da direita.

(Work in progress. Continua)

Leia a série completa de A arte da crítica

Ou na página do Facebook: A arte da crítica

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