Os poderes de Dona Hermínia


Em tempos de bilheteria magra, espanta o sucesso de Minha Mãe é uma Peça, agora em seu terceiro episódio. A chave desse êxito, claro, é a personagem Dona Hermínia, interpretada pelo ator Paulo Gustavo e inspirada em sua própria mãe. Parece simples. Mas explicar o sucesso de um filme é como analisar o resultado de um jogo de futebol: fica fácil depois que acontece. Mas quem poderia supor, de antemão, que essa mãe desbocada, com bobes no cabelo, marcaria com sua irreverência a já meio cansada comédia nacional?

Talvez uma primeira aproximação esteja nesse termo, “irreverência”. Há exceções, por sorte, mas os filmes em particular, e as obras artísticas em geral, parecem já sofrer o peso dos tempos. Fica difícil fazer humor cáustico sem que algum grupo se sinta ofendido. E fazer humor comportado é a mesma coisa que não fazer humor. O exemplo tivemos agora mesmo, com as tentativas de tirar do ar o especial de Natal do Porta dos Fundos, felizmente barradas pelo Supremo.

De maneira mais sutil, as pressões por um humor “mais conveniente” se generalizam. Junto com o necessário respeito a grupos já discriminados, vão-se embora a espontaneidade e o arrojo. Nesse sentido, Dona Hermínia parece um sopro de liberdade. Num mundo em que toda palavra precisa ser medida para evitar reações e punições nas redes sociais, Dona Hermínia parece dizer o que lhe vem à cabeça. E não precisa ofender ninguém para ser engraçada, dizer o que lhe passa pela cabeça e assumir uma posição libertária.

Assisti aos três filmes com o público e não em sessões especiais de imprensa. Às vezes é melhor assim. Deu para ver como a plateia reage e se diverte com a fala rápida e desconcertante de Dona Hermínia. O roteiro é elaborado e as falas são reescritas várias vezes – mas o resultado passa espontaneidade, raciocínio veloz, respostas na ponta da língua. Paulo Gustavo usa essa técnica de falar bem rápido, de modo que o espectador fique enganchado no diálogo, sem tempo para se distanciar. Domingos Oliveira fazia a mesma coisa.

Essa, a forma. O conteúdo é progressista, o que nem sempre ocorre com a comédia. O “humor” racista, homofóbico, misógino, que debocha de pobres e grupos frágeis é reacionário. Visa reforçar a estrutura injusta da sociedade. O humor libertário é inclusivo. Questiona preconceitos e abre a cabeça do público para aquilo que é diferente dele. Esse, o mérito de Dona Hermínia: num tempo careta, é progressista e põe em xeque os preconceitos – sem escandalizar a facilmente escandalizável família brasileira. Afinal, mãe é mãe e merece respeito.

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