A morte de Maurice Capovilla, o nosso Capô


A nota triste do sábado é a morte de Maurice Capovilla, aos 85 anos. Capô, como todo mundo carinhosamente o chamava no meio cinematográfico, foi diretor de talento. Entre seus vários filmes, destacam-se documentários como Subterrâneos do Futebol (1965) e ficções como Bebel, Garota Propaganda (1967), O Profeta da Fome (1970) e O Jogo da Vida (1977).

Teve também extensa carreira como produtor, ator e docente de cinema. Trabalhou no projeto original do Instituto Dragão do Mar, núcleo cinematográfico criado pelo governo do Ceará, em Fortaleza, uma fugaz fonte de inspiração para o nosso cinema.

Bebel, Garota Propaganda é adaptado do romance de Ignácio de Loyola Brandão, e O Jogo da Vida, de Malagueta, Perus e Bacanaço, de João Antônio. São filmes muito bons.

Talvez seu trabalho mais marcante e original seja o incisivo, estranho e corrosivo Profeta da Fome, estrelado por ninguém menos que José Mojica Marins, o Zé do Caixão. O personagem vive de exibir-se como faquir e acaba, involuntariamente, por criar uma seita, na qual seria o guru e salvador. Mas o espírito iconoclasta da figura tão bem interpretada por Mojica impede a seita de prosperar.

Na avaliação da obra de Capô, o crítico hesita em colocar Profeta da Fome ou Subterrâneos do Futebol como a obra-prima do diretor.

Subterrâneos, com seu corte sociológico, talvez ainda seja a melhor radiografia do nosso esporte mais popular. Esporte, por falar nisso, ao qual Capô sempre esteve muito ligado, tendo passado perto de se tornar atleta profissional em sua juventude, quando saiu de sua Valinhos natal para treinar no Fluminense. Vale rever esse filme.

Para quem o conhecia, Capô era uma adorável figura. Animado, cheio de vida e incansável dançarino, animava as noites alegres dos festivais de cinema no tempo em que estes aconteciam de maneira presencial e eram pontos de encontro de amigos, além de lugar de debates e concursos de filmes.

Capô fez ainda um longa de ficção, Harmada (2005), baseado no romance homônimo de João Gilberto Noll e interpretado por Paulo César Pereio. Também dirigiu uma ficção inspirada no compositor Lupicínio Rodrigues, chamado Nervos de Aço, título de uma das canções de Lupi, um magistral cultor da dor-de-cotovelo. Grande admirador de Lupicínio, Capô no entanto tinha a alegria como divisa maior e vocação natural. Foi uma grande pessoa.

Um comentário em “A morte de Maurice Capovilla, o nosso Capô

  1. Caramba, quanta tristeza junta!!!! Estudei com sua filha Lia, no colégio equipe. Aliás, foi no cineclube do Colégio Equipe que ouvi pela primeira vez o “mediador” do cineclube falar da importância de Capô pra nossa cultura (e nem sabia que era o pai da Lia. Esse mediador, ou “agitador cultural” como era chamado foi Serginho Groisman. Até hoje me lembro dessa apresentação, acho que como introdução de “O Profeta da Fome”, apresentado no cineclube em 1978… O Brasil ficando cada vez mais triste…

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