A arte da crítica (25): De profundis


Falamos de maneira mais ou menos arbitrária sobre filmes “superficiais” e “profundos”. Uma dicotomia, entre tantas. Nos primeiros, o sentido se daria de imediato, sem qualquer necessidade de mediação. Para eles, a crítica, pensada como intermediária, seria, no limite, inútil. São o que são e acabou-se.

Sobre os segundos, a crítica seria mais necessária, pois exigiria, também no limite, um ato de, digamos, decodificação. Implicaria no mergulho abissal da obra e sua necessária interpretação.

No entanto, ao que me lembre, Nietzsche dizia que a profundidade talvez fosse apenas “uma ruga da superfície”. Isso no famoso ensaio de Michel Foucault, Nietzsche, Freud e Marx.

Eis, resumidamente, o que diz Foucault: “…Se o intérprete deve ir pessoalmente até o fundo como um escavador, o movimento de interpretação é, pelo contrário, o duma avalanche, o duma avalanche cada vez maior, que permite que por cima de si se vá despregando a profundidade de forma cada vez mais visível; e a profundidade torna-se então um segredo absolutamente superficial de tal forma, que o voo da águia, a ascensão da montanha, toda esta verticalidade tão importante em Zaratustra, não é, em sentido restrito, senão o revés da profundidade, a descoberta de que a profundidade não é senão um jogo e uma ruga da superfície. À medida que o mundo se revela mais profundo aos olhos do homem, damo-nos conta de que o que significou profundidade no homem não era mais do que uma brincadeira de crianças.”

Essa ideia de Nietzsche contrapõe-se a uma espécie de lugar-comum. Obras “profundas” exigiriam esse mergulho, da superfície ao fundo, onde jaz o sentido último. Uma operação vertical, tudo somado, com o intérprete (o crítico no caso) funcionando como uma espécie de escafandrista, que desce em busca do sentido, ou da “verdade”, ou “essência, da obra.

Essa “verdade” ou esse “sentido”, ou “significado” não se dá de maneira imediata. Exige mediações, operações que possam evidenciar esse sentido escondido. Alguém já disse (acho que foi o próprio Nietzsche, e se for, a afirmação é contraditória) que a verdade se encontra no fundo de um poço. Sempre a metáfora da verticalidade.

Há também a operação de decodificação. A obra, como a pedra de Roseta, é expressa em hieróglifos que precisam ser decodificados, ou seja, transpostos para uma linguagem conhecida. O intérprete (o crítico), diante da obra enigmática, seria um Champollion moderno, que traduziria em linguagem contemporânea (portanto acessível a todos) uma linguagem antiga, cujo sentido se perdeu e ele agora reencontra.

Assim, por exemplo, um filme como O Ano Passado em Marienbad, de Alain Resnais, pode não se oferecer como fruição direta para boa parte do público. Talvez uma mediação crítica ofereça algumas luzes sobre o filme, de modo que possa ser melhor apreciado. Essas mediações seriam mesmo indispensáveis? Ou seja, o filme teria de ser acompanhado de uma espécie de manual de uso para que pudesse de fato “funcionar”? Nada mais problemático.

Já Joseph Conrad, em O Coração das Trevas, afirma que:

“As fábulas contadas por marinheiros são de uma simplicidade imediata, cujo significado total encontra-se dentro da casca rachada de uma noz rachada. Porém, Marlowe não era um marinheiro típico (exceto por sua propensão às fábulas) e, para ele, o sentido de um episódio não se encontrava dentro como um caroço, mas fora, envolvendo a narrativa que o revelara, apenas como um fulgor revela a neblina”. O profundo está no simples. Na sua casca mais externa.

Mas prevalece uma tradição binária, com longa permanência em nossa maneira de pensar. Tome-se outro exemplo, este da psicanálise. Quando Freud estuda os sonhos, fala da distinção entre conteúdo latente e conteúdo manifesto. Este seria o sonho, tal como aparece ao sonhador. O outro, o latente, seria alcançado apenas através de um procedimento analítico – no caso as associações livres de ideias. De qualquer forma, há entre manifesto e latente esta relação sempre binária entre aparência e essência.

No caso dos filmes, qual a operação conduzida caso desejemos ir além dos dados imediatos? Quer dizer, a materialidade do filme – a que bate na tela e impressiona os nossos sentidos, imanta (ou não) a nossa sensibilidade e, no limite mais íntimo, toca alguma coisa em nosso inconsciente. Quer dizer, fere (no sentido musical do verbo) alguma corda recôndita, que ressoa em nós sem que saibamos de imediato como nem por quê.

A perspectiva da crítica, nesse ponto, é bastante problemática. Precisa detectar na forma (isto é, na superfície) estes pontos sensíveis. E, em seguida, traduzi-los em palavras, único recurso disponível em seu arsenal, para usar uma metáfora bélica, talvez um tanto inadequada.

De qualquer forma, algo da experiência aí se perde. E, muitas vezes, sou consciente disso, quando falo em crítica, acabo falando em algum tipo de perda. A não ser que haja algum tipo de crítica que seja um acréscimo, sem por isso deformar, de acordo com a subjetividade do crítico, o “objeto” sobre o qual ele se debruça, observa, sente e escreve.

Mas esta é outra conversa, talvez em terreno ainda mais cediço, e fica para uma outra vez.

(Work in progress. Continua)

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