‘First Cow’, faroeste filosófico sob olhar feminino


O faroeste teve sua época de glória e mereceu um artigo célebre do grande crítico francês André Bazin chamado O western ou o cinema americano por excelência. Após décadas de glória e grandes filmes, o gênero regrediu e foi sendo abandonado. Às vezes ressurgia sob formas crepusculares, decadentes. Como o sol tem seu esplendor antes do ocaso, o melhor desse filmes tardios deve ser Os Imperdoáveis, de Clint Eastwood. Mas nunca, até agora, a sombra do western havia voltado sob forma tão original quanto a deste First Cow – a Primeira Vaca da América, dirigido por uma mulher, Kelly Reichardt. Ela faz, até onde eu saiba, o primeiro faroeste culinário da história. Talvez seja também o último.

Tudo isso para falar da extrema originalidade e do frescor do olhar feminino lançado à saga da conquista do Oeste nas primeiras décadas do século 19.Temos, logo de entrada, um filme que se poderia chamar de “sensorial”, no qual a rudeza das condições de vida se estampam na tela de maneira detalhista. Tudo parece dureza, brutalidade e desconforto na vida daqueles pioneiros, caçadores ou garimpeiros, situados no Oregon, noroeste dos Estados Unidos.

Estamos em 1820 e os territórios pouco explorados oferecem oportunidades e desafios aos aventureiros. É a base do western. Terras por conquistar, presença de indígenas, lugares sem lei definida, relações violentas e oportunidades de lucro, nem todas lícitas ou aceitáveis. Nesse ambiente, encontram- se dois personagens improváveis. Um cozinheiro errante, Cookie Figowitz (John Magaro) e um imigrante chinês, King-Lu (Orion Lee). Nasce entre os dois uma amizade e, como eles têm também um lado trambiqueiro, irmão do empreendedorismo, logo descobrem uma maneira de fazer dinheiro fácil. E, quem sabe, acumular o suficiente para se mandarem dali em busca de paragens mais amenas, num sonhado hotelzinho em San Francisco, talvez.

No decorrer da história, outro personagem se insinua, o britânico chamado pelas pessoas de Chief Factor (Toby Jones), no caso proprietário da vaca que dá título à obra. O animal será também pivô do conflito, já que a dupla de empreendedores precisa furtar o leite que serve de matéria-prima aos bolinhos cozinhados por Figowitz e que fazem a fortuna da dupla.

Há um lado humorístico na história. Por exemplo, na caricatura de lorde inglês perdido na terra selvagem da América, tão bem interpretado por Toby Jones. Mas, ao lado do humor pelo lado do ridículo, aflora nele o lado sinistro, o do colonizador que defende o castigo físico até o limite da morte, como forma de “exemplo” aos recalcitrantes. Esse grã-fino, capaz de importar um animal para lhe fornecer leite ao chá das cinco, é também o bárbaro mór em meio aos outros bárbaros. Diz muito da figura colonial, da maneira como os refinados europeus tratavam os seres “inferiores” das colônias e depois se espantavam com sua revolta. Ou seja, é um humor triste e amargo. Um humor da brutalidade, que ri e goza ao esmagar o próximo em nome da civilização.

Mas, como contraponto a essa violência com punhos de renda, há também espaço para a amizade e a ternura na fábula proposta por Kelly Reichardt. A amizade é o lar do homem – conforme um dos Provérbios do Inferno, de William Blake, escolhido como epígrafe do filme: “The bird a nest, the spider a web, man friendship”. A amizade é, para o ser humano, o que o ninho é para o pássaro e a teia, para a aranha”. Conforto e abrigo em meio ao desamparo do nada, no lugar onde “a história ainda não chegou”, como diz um dos personagens, o pensativo King-Lu.

Faroeste filosófico, western culinário, em que a aspereza rima com a delicadeza e o primitivo com o sofisticado, First Cow revigora um gênero cinematográfico cansado, ao mesmo tempo em que o desconstrói.

Cotação: ÓTIMO

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