Ana. Sem Título: a tragédia de um continente


Depois de passar por festivais,  Ana, Sem Título, de Lúcia Murat, chega agora no circuito. O filme faz o percurso de vários países em busca de uma artista plástica desaparecida. No trajeto, relembra as lutas do passado, as atrocidades cometidas pela repressão em nome da defesa da democracia e projeta os impasses do presente. 

O expediente narrativo de Ana, Sem Título joga o filme no limite entre a ficção e o documentário. Fronteira, como se sabe, cada vez mais imprecisa e fluida. O “enredo”? Stella (Stella Rabello) está realizando um documentário sobre artistas plásticas que trocaram cartas ao longo dos anos 1960 e 1970, na América Latina. A busca ganha novo sentido quando descobre uma série de fotos da artista Ana (Roberta Estrela d’Alva). Assim: sem sobrenome. Um nome que se escreve da mesma forma de trás para frente e de frente para trás.Um palíndromo. Como um espelho. 

A Ana do filme teve ou tem vida intensa. Quem pode dizer se está viva, ou onde mora?  Artista performática, negra, contestadora, teria sido perseguida pela ditadura. O filme é a história dessa busca. Por falar nisso, os documentários de busca são hoje quase um subgênero à parte, tanto no cinema brasileiro como no internacional. Pensemos, a título de exemplos, em 33, de Kiko Goifman, e Diário de uma Busca, de Flávia Castro. São obras radicalmente autorais, que só poderiam ter sido feitas por essas pessoas, pois se referem a pesquisas sobre a própria identidade. 

No trabalho de Lúcia Murat, acrescenta-se a camada de ficção, o que o torna diferente, mas ainda assim dentro de uma perspectiva de busca. A ficção ajuda a abordar a questão sem fim sobre o labirinto político latino-americano.

Acrescentam-se, na verdade, outras camadas, pelo fato de Ana ser negra e lésbica, o que traz o filme para as questões identitárias do presente. A política “tradicional” lá está – e não poderia ter sido de outra forma no trabalho de uma cineasta ela própria envolvida na luta contra a ditadura militar brasileira (1964-1985). E também autora de um doc emblemático sobre as cicatrizes dessa luta, Que Bom te Ver Viva (1989). 

Em Ana, vemos em cena a própria Stella, além da diretora Lucia Murat, que representa a si mesma, e mais a pequena equipe técnica. Ana é a sombra que se vislumbra ao fundo e dá sentido à figura de frente, isto é, ao périplo que vai de Cuba ao México, passando pelo Chile, entrando na Argentina e voltando ao sul do país, onde talvez se possa encontrar o rasto da hipotética Ana. 

Do México, com o massacre da Plaza Tlatelolco à brutalidade militar chilena, o que se encontra não são apenas os traços de uma mulher perseguida por suas ideias avançadas. Acompanhamos o desfile macabro de barbaridades cometidas pelos donos do poder nestas terras de caudilhos, militares golpistas e sociedades civis cúmplices. 

A figura de Ana, construída de pedaços de lembranças e raras imagens, vai se formando, mas não chega a compor um todo. Ela é sempre um ser, digamos assim, virtual, fragmentado, que serve de espelho à nossa tragédia histórica. 

Ana. Sem Título é um belo e pungente filme, que usa da ficção como sucedâneo documental para vislumbrar as veias abertas do nosso continente. 

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