Embarque, comédia romântica e crítica social à francesa


A comédia romântica ‘Embarque’ é uma das boas atrações do My French Film Festival, que traz 30 filmes francófonos, entre longas e curtas, disponíveis de forma gratuita em várias plataformas até 14/2.

Um rapaz e uma moça se conhecem em uma festa à beira do Sena e dançam até o sol raiar. Começam o namoro. No dia seguinte, ela viaja com a família de férias rumo a uma cidade no sul da França, distante 600 km de Paris. Ele resolve encontrá-la, de surpresa. Leva, a tiracolo, seu melhor amigo. Pegam carona na estrada e, entre brigas e afagos, o duo torna-se um trio de rapazes.

Eis aí um ponto de partida para uma comédia de verão, descompromissada talvez. Embarque (À l’abordage) não deixa de ser isso mesmo. Mas, sendo o que é, também consegue ser um ótimo e agradável filme, boa e surpreendente atração do My French Film Festival.

Assim como os outras 30 produções, entre longas e curtas-metragens, Embarque pode ser visto, de forma gratuita, em várias plataformas como o Reserva Imovison (https://www.reservaimovision.com.br/), o Belas Artes a la Carte (https://www. belasartesalacarte.com.br), o Filmicca (https://www.filmicca.com.br) e no próprio site do festival (https://www.myfrenchfilmfestival.com/pt/

Como comédia (romântica, dramática?), Embarque lembrará aos cinéfilos um dos pilares da nouvelle vague, Éric Rohmer, com seus contos de quatro estações e outros trabalhos dedicados à eterna questão dos relacionamentos amorosos e seus impasses. Com uma diferença. Exceto por uma sequência, Embarque não traz personagens intelectualizados, próximos da literatura, como são os de Rohmer. Pelo contrário. São jovens simples, na fase mais hormonal da juventude e mais próximos da parte desvalida da sociedade francesa que da sua porção universitária e letrada.

Félix (Éric Nantchouang) e Shérif (Salif Cissé) são dois jovens negros que batalham pela sobrevivência. Félix é cuidador de idosos e Shérif é empregado de supermercado. Mente ao patrão para tirar a semana de férias em companhia do amigo. Como ele mesmo se define, é um fracassado na vida, inclusive na relação com o sexo oposto. A carona que conseguem é com um jovem também pouco afirmativo, um filhinho de mamãe que presta contas à genitora a todo instante pelo celular. Ela o trata por um nome carinhoso pelo viva voz do celular, o que lhe vale o apelido de “Chaton” (Gatinho) para os caroneiros, seus novos amigos.

A tal cena mais “intelectualizada”, entre goles de vinho tinto e referências cultas ao som de uma peça de Tárrega para violão (Capricho Árabe), parece um tanto deslocada do conjunto. Talvez seja um aceno-homenagem a Rohmer.

Fora isso, Embarque é uma obra de muito frescor. A relação dos jovens entre si soa muito natural, as tensões do amor logo aparecem, se formam e se dissolvem como acontece com os namoros de verão. Também é um filme sobre o processo de amadurecimento e de como este cobra seu preço (às vezes muito alto) aos que se iniciam na vida. Prevê algumas reviravoltas, com os que se dão bem dando-se mal, e vice-versa. A nota crítica é temperada por uma sincera simpatia com os personagens. O local, com seu rio, cascatas e piscinas, funciona não apenas como décor, mas como personagem a mais nesta fábula de coming of age.

De modo geral, o filme foi bem recebido pela crítica francesa, até mesmo pelos veículos mais exigentes. Foi eleito um dos 10 melhores do ano pela austera Cahiers do Cinéma, o que é uma proeza para filme do seu gênero. O Le Monde também gostou (quatro estrelas em cinco possíveis) e escreveu algo interessante: “Guillaume Brac nos fala de um país distante, que bem poderia ser o nosso”.

De fato, Embarque tem esse lado “feel good movie”, o filme para nos sentirmos melhor, utensílio de primeira necessidade neste mundo em que vivemos, definido por um conflito permanente pelas mais variadas razões. Nesse sentido, fala de uma França de certo modo idealizada, em que um rapaz negro da comuna periférica de La Courneuve pode namorar sem maiores problemas uma garota branca de classe média parisiense.

Como os amores de Embarque são interraciais, a questão do racismo estrutural permanece submersa, mas aparece de modo pontual para mostrar que nem tudo são rosas. Por exemplo, quando a moça hesita em levar Félix para conhecer seus pais na casa de veraneio. Seria uma repetição do clássico do recém-falecido Sidney Poitier Adivinhe quem Vem para Jantar, mais de meio século depois? Ou quando um rapaz branco do acampamento de verão se aproxima dos dois jovens negros e lhes pergunta se podem fornecer algum tipo de droga para animar a festa.

Essas cenas servem como lembretes de que, mesmo em situações idealizadas, a realidade insiste em marcar presença. Como sinais, talvez, de que ainda temos muito a caminhar para merecer um mundo em que as pessoas sejam de fato iguais, em toda a sua diferença. Mas, considerações à parte, Embarque é uma graça.

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