A Ilha de Bergman: amor, cinema & metalinguagem


A Ilha de Bergman – assim ficou conhecida a Ilha de Farö, na qual o imenso Ingmar Bergman (1918-2007) passou seus últimos anos. Já houve um documentário, de 2010, de Marie Nyreröd, entrevistando o cineasta em seu domicílio insular. Filme exibido na Mostra de São Paulo e lançado em DVD. Muito bom, aliás. Agora chega a ficção, dirigida pela francesa Mia Hansen-Love, e com o mesmíssimo título – A Ilha de Bergman.

Aqui se trata da história de um casal de cineastas que se desloca a Farö, transformada em atração turística. Viajantes vão em busca desses impalpáveis traços deixados por um cineasta do qual, talvez, jamais viram um filme. Já o casal de diretores vai a Farö para escrever. Chris (Vicky Krieps) e Tony (Tim Roth) alugam uma casa e buscam tranquilidade e ar inspirador para desenvolver seus respectivos projetos.

Já que ninguém fica imune ao “efeito Bergman”, o filme de Hansen Love adota ares de autorreferência. Ou seja, muitas vezes é cinema falando de cinema. Mas também falando de vida, o que desativa, pelo menos em parte, a implacável armadilha metalinguística, do filme dentro do filme.

Isso porque o casal parece bastante amoroso no início, mas há conflitos latentes, que aos poucos afloram no ambiente da ilha. A diferença de idades (ele mais velho) às vezes pesa, assim como a diferença de sentimentos dos dois em relação ao legado de Bergman. Tony é um admirador incondicional do autor de Persona e Gritos e Sussurros. Chris também gosta dos filmes, mas, em sintonia com seu tempo, tempera a admiração com restrições ao modo como Bergman tratava as mulheres. Hoje, vida e obra são vasos comunicantes quase sem filtros entre eles.

Mas há um outro salto narrativo, quando Chris submete seu roteiro à leitura de Tony e este passa a se transformar no filme que se vê na tela. Portanto, um salto triplo carpado, com três camadas ficcionais que interagem. Há esse lado, digamos, intelectual. Mas essa Ilha não submerge ao cerebralismo vazio. No fundo, é uma bela história de amor, sob as asas protetoras de um mestre nas contradições humanas, Ingmar Bergman.

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