Elza & Mané – um Amor por Linhas Tortas


Elza Soares e Mané Garrincha

Ela era a voz do momento, e cativava o público com seu canto sincopado; ele, o mago das pernas tortas, encantava a torcida nos estádios de futebol. Dois talentos brasileiros. Elza Soares e Mané Garrincha engataram um romance que fez época – e é revivido na minissérie Elza & Mané, o Amor por Linhas Tortas, em quatro episódios disponíveis a partir de hoje na Globoplay. 

Dirigida por Caroline Zilberman, a série concentra-se primeiro na formação do casal Elza Soares e Mané Garrincha, justamente por ocasião da Copa do Mundo de 1962, disputada no Chile. Traz imagens da época, tanto da cantora quanto do jogador. Busca as origens humildes de ambos, a ascensão para a fama e o encontro dos dois. 

Música e futebol, não por acaso os dois ítens mais potentes da cultura brasileira, tanto para consumo doméstico como para exportação. O jogador é celebrado. Um craque como Gérson (chamado na época de o “Canhotinha de Ouro” pela precisão dos seus passes longos) lembra da categoria de Mané ao aplicar seus dribles – previsíveis, porém inevitáveis. Nilton Santos, seu companheiro no Botafogo e compadre, conta da chegada do jogador ao clube e de como era impossível pará-lo. Nilton fala de cátedra – é considerado o maior lateral-esquerdo da história do futebol brasileiro e chamado pelos locutores da época de A Enciclopédia do Futebol. Para leigos: o lateral-esquerdo é em geral o responsável pela marcação do ponta-direita, posição de Mané. Nilton Santos sabia que era melhor ter Garrincha com ele do que contra ele. 

Caetano Veloso fala de Elza e do espaço que ela ocupou na música brasileira: “Foi inovadora. Seu timbre é original e inimitável”. De fato, vemos e ouvimos a jovem Elza, com sua energia e o scat singing que a celebrizou. Louis Armstrong a ouviu e a considerou sua discípula, embora Elza diga que jamais na vida ouvira falar em Louis, seu trompete mágico e sua envolvente voz rouca. 

Chico Buarque, que conviveu muito com o casal nos anos de exílio na Itália, traz informações surpreendentes. Diz que Garrincha era homem muito inteligente, cheio de senso de humor e bom gosto irrepreensível. “Ele gostava muito de ouvir João Gilberto”, diz Chico. Essa declaração, de certo modo, desfaz um dos clichês que considera Mané um tipo ingênuo, com problemas cognitivos. 

As origens sociais dos dois personagens são mostradas como vidas paralelas, à maneira de Plutarco. Elza, filha de mãe lavadeira, subia e descia morro para entregar na cidade as roupas lavadas, enxaguadas e passadas pela mãe. Meio por esporte, apresenta-se no programa de calouros de Ary Barroso e interpreta a canção Lama. A história é célebre e a própria Elza a relembra: “Ele me perguntou de onde eu tinha vindo. Eu disse: do mesmo planeta que o senhor, seu Ary – do planeta fome”. Depois de cantar, o rabugento Ary se rendeu: “Senhores e senhoras, aqui nasceu uma estrela”. 

O próprio Garrincha, e pessoas que o conheceram, como o compadre Nilton Santos, relembram a infância pobre em Pau Grande, distrito de Magé. Trabalhador relapso de uma fábrica de tecidos, destacava-se no futebol. Não era demitido porque resolvia em campo os problemas do time da firma. Garrincha não tinha vocação proletária. Gostava mesmo era de jogar bola no campinho de terra e tomar umas e outras com os amigos do peito. 

A série é enriquecida pelos depoimentos dos biógrafos dos dois personagens. Ruy Castro descreveu a vida do jogador em Estrela Solitária (Cia das Letras), e Zeca Camargo, a da cantora, em Elza (LeYa). Conhecem profundamente seus personagens e mostram-se capazes de desfazer alguns clichês sobre os dois. 

Histórias não faltam. Afinal, eram duas das pessoas mais famosas do país quando se uniram. Havia um problema, entre outros – Garrincha era casado com Nair e pai de sete filhas. Pela porção mais conservadora da sociedade brasileira, Elza passou a ser vista como “destruidora de lares” e Mané, como marido infiel. 

Havia outra questão, que desde cedo pesou na vida do casal – o alcoolismo de Garrincha, desenvolvido, segundo ele próprio, desde a infância. Para aquietar as crianças, diz, havia o costume de dar a elas uma infusão chamada “cachimbo”, feita de cachaça, mel e pau de canela. “Comecei a beber aos dez anos”, admite Garrincha. E assim prosseguiu, mesmo quando se tornou atleta profissional. Era comum internar-se em Pau Grande para bebedeiras com os amigos, faltando aos treinos no Botafogo. Como nos domingos resolvia os jogos para o seu time, era tolerado, e o vício, escondido. “Todo mundo sabia disso”, conta Ruy Castro, “mas havia um pacto de silêncio entre os jornalistas, a maior parte deles torcedores do Botafogo”.  

Apesar dos problemas, esse começo de relacionamento pode ser considerado a era de ouro do casal. Ao se unirem, Elza estava no auge e assim se manteria. Ao ganhar a Copa do Chile, comandando a equipe e marcando gols decisivos, Garrincha tornou-se herói nacional. “Só que ele não sabia que já estava deixando de ser Garricha”, diz Ruy Castro. 

 Os anos de chumbo viriam depois, com desastres coletivos como a ditadura militar que assolou o país. E debacles pessoais, como o agravamento da doença de Garrincha e o desastre de automóvel que matou a mãe de Elza. A cantora perdeu quatro filhos ao longo da vida. Entre eles, o Garrinchinha, o único que teve com Mané, morto num acidente de carro. 

Mas toda essa série de desgraças viria depois. Por enquanto, Elza Soares era a deusa do samba, que encantava todo um país com sua interpretação suingada de Se Acaso você Chegasse. E Mané Garrincha, era o Chaplin da ponta-direita, aquele que divertia a torcida, entortando sucessivos marcadores, como as cenas de futebol atestam.  Com a contusão de Pelé no segundo jogo da Copa do Chile, tornou-se a referência do time e fez de tudo para trazer a taça pela segunda vez ao país. Inclusive fez tudo aquilo de que não o julgavam capaz – jogo coletivo e responsável, gol de cabeça e de falta, liderança em campo. Estava no auge. Mas, ao alcançar esse pico, também começava a descida da montanha. 

A série documental é muito bem feita. Não procura fugir ao estilo televisivo e, dentro dele, move-se muito bem. Conta com rico material de arquivo, tanto de Elza como de Mané,  e dos dois juntos. Embora anteriores à era digital, ambos foram fotografados, filmados, gravados e entrevistados à exaustão. Alternar as biografias de ambos em montagem paralela funciona muito bem. Sugere ritmo e empolgação, tudo que a dupla tinha de sobra. 

Essas vidas, vindas do fundo da pobreza e alçadas à fama, além de mostrar o talento extraordinário dos protagonistas, desvelam algo de mais profundo na estrutura social do país. Como diz no primeiro episódio o historiador Luiz Antonio Simas, o Brasil oficial é o país da exclusão. As portas estão fechadas para as classes populares, em especial para as pessoas não-brancas. “Elza e Mané só alcançaram o protagonismo através do talento para o futebol e a música; eram seus únicos caminhos possíveis”.  

Ao retratar a trajetória da dupla, a série também evoca um tempo mais feliz do país. Em que pese a desigualdade social, tudo parecia dar certo – sucesso mundial no esporte, música magnetizante, uma nova capital modernista. O país do futuro, na expressão do incauto Stefan Zweig, estava por fim chegando lá. Mas o sonho logo teria fim e o pesadelo começaria também para Elza e Mané. 

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