ETV 2022: Adeus, Capitão, um épico da resistência indígena


Como nos clássicos Corumbiara e Martírio, Vincent Carelli (em parceria com Tita) faz em Adeus, Capitão um filme-rio. Longo, sinuoso, luminoso em alguns pontos, obscuro em outros. 

Centrado na longa convivência de Carelli com o “capitão” Krohokrenhum, liderança dos índios Gavião, trata da saga de um povo. E da luta, muitas vezes contraditória, da sobrevivência de uma cultura em meio à “civilização” dos kupen – os não-índios, os brancos. 

O Capitão viveu 90 anos e tem muita história para contar. Das lutas internas da etnia, divida em três tribos, até a exploração de um castanhal próximo a Marabá, quando sofrem abusos da própria entidade que deveria defendê-los, a Funai. 

Em meio a essa extensa história, rememorada pelo indígena, mas também pela voz off de Carelli, há pontos muito luminosos e esclarecedores. Por exemplo, quando o Capitão diz que não há como traduzir em seu idioma a palavra “dinheiro”. Simplesmente, não existe o conceito. E, no entanto, é o dinheiro que move o mundo dos brancos. E é em torno do dinheiro que o Capitão deverá se reunir com representantes de empresas para discutir o valor de uma reparação a ser paga pela utilização das terras indígenas. 

Seria simplista dizer que isso significa a entrada dos Gavião no mundo do business. Mas é algo da ordem da contradição entre culturas, com tudo que isso implica. 

Uma das principais preocupações do Capitão é com a unificação das três tribos. Age como estadista ao saber que na união que reside a força e que as dissidências internas podem enfraquecê-los e levá-los à destruição. 

Outra de suas preocupações é com a preservação cultural. Inquieto, ele constata que os jovens estão mais voltados aos hábitos dos kupen que aos rituais e tradições milenares. Mas há um desafogo quando determinados rituais, como a perfuração de lábios e orelhas, são retomados. A cultura milenar respira. Mas não se trata de uma vitória fácil, nem simples, nem definitiva. 

Incomodado com a baderna e as bebedeiras na aldeia, o Capitão, cansado, resolve se afastar da tribo. E esse afastamento é a senha para a entrada livre de pregadores evangélicos, que chegam para desfigurar mais ainda a combalida cultura dos povos originários. 

Adeus, Capitão é assim. Avança, recua, traça um arco de tempo não-linear das relações entre Gaviões e a “civilização” branca, dominante. Nem sempre é fácil de compreender. Visto numa perspectiva mais larga, não trata apenas das relações entre uma etnia e seu ocupante (para usar um termo de Paulo Emílio Salles Gomes), mas de um verdadeiro choque de civilizações, em flagrante desproporção de forças. É, mais uma vez, uma obra incontornável. 

Sessões

Competição Brasileira de Longas e Médias-MetragensOnlineÉ Tudo Verdade Play05/04/2022 às 21h00
Competição Brasileira de Longas e Médias-MetragensSão PauloEspaço Itaú de Cinema Augusta – Sala 105/04/2022 às 20h00
Competição Brasileira de Longas e Médias-MetragensRio de JaneiroEspaço Itaú de Cinema Botafogo – Sala 605/04/2022 às 20h00
Competição Brasileira de Longas e Médias-MetragensOnlineÉ Tudo Verdade Play06/04/2022 às 12h00
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