O cinema como oração


A cereja do bolo do Russian Film Festival, no Cine Belas Artes, é, sem dúvida, o documentário Andrei Tarkovsky – o Cinema como Oração, sobre o mestre do cinema soviético responsável por obras como Andrei Rublev, Solaris e Nostalgia, entre outras. O filme é dirigido pelo filho do cineasta, Andrei A. Tarkovsky. Com apenas a letra A a diferenciá-lo do pai, Andrei faz um belo trabalho de prospecção amorosa de uma obra genial. E com ênfase nas ideias do pai, mais que um diretor, um pensador do cinema.

O filme passa quinta-feira (23/6), às 19h. Até domingo estão programados mais três longas-metragens de cineastas do país, obras recentes e assinados por mulheres: Um Fôlego, de Elena Khazanova (sexta), A Primeira Neve, de Natália Konchalovskaya (sábado) e Quero Casar, de Sonya Karpunina (domingo), com sessões sempre às 19h.

Na abertura, temos então esse exame em perspectiva de uma das mais singulares obras do cinema moderno. O documentário apresenta trechos de cada um dos filmes de Tarkovsky, de A Infância de Ivan, à última, O Sacrifício, que encerra o ciclo e lhe confere o sentido metafísico buscado pelo autor. O próprio Tarkovsky comenta cada um dos seus filmes e os associa a uma postura estética bem particular.

Filho de pai poeta (Arsenij Tarkovsky), o cineasta mantém vivo o diálogo entre o cinema e a literatura (é fã de Tolstoi e considera Hamlet, de Shakespeare, a obra máxima da literatura). Mas especula que a assim chamada “sétima arte” surge para dar conta daquilo que nenhuma das outras seis poderia fazer: apreender o tempo. Não à-toa seu maravilhoso livro de memórias cinematográficas se chama Esculpir o Tempo (Martins Fontes). Tarkovsky considera que o cinema é o único dispositivo capaz de “congelar o tempo”, e que surge num momento preciso, final do século 19, justo quando a questão do tempo se torna premente para a humanidade em seu conjunto e não apenas para os filósofos.

Essa linha mestra serve como guia para mergulhar em seus filmes, oceânicos em sua profundidade, mas também labirínticos quanto à forma. Fala-se muito do seu cinema como sendo “metafísico”, ou seja, buscando algo além do realismo, do real bruto tal qual ele se nos apresenta. Expressar esse algo além, indizível em seu limite, parece o empenho maior do artista que, nessa perspectiva, só poderia mesmo instalar-se no campo da religiosidade, em sua busca do absoluto. Há que considerar Tarkovsky como representante da tradicional e forte cultura russa, com tudo o que ela contém de simbolismo, religiosidade e misticismo.

Com Infância de Ivan (1962) ele vence o Festival de Veneza, um dos mais importantes do mundo. Sua premiação foi polêmica e Tarkovsky foi defendido por ninguém menos que Jean-Paul Sartre, então no auge de sua influência filosófica e política. Porém, o cineasta mostrou-se pouco contente: “Sartre me defendeu de um ponto de vista filosófico; eu queria ver meu filme compreendido pelo ângulo artístico”. Não é pouca exigência ser elogiado por Sartre e ficar insatisfeito. Mas o fato curioso revela o temperamento perfeccionista de Tarkovsky e o rigor formal com que constrói sua obra, passo a passo.

Diz também que reviveu os conflitos com o pai em O Espelho e que o favorito, entre seus filmes, é Stalker, uma de suas obras mais enigmáticas. Os fãs de ficção científica não esquecerão de Solaris, a resposta soviética a 2001 – Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick. E os críticos talvez prefiram Andrei Rublev. Mas é o conjunto do seu trabalho que se mostra fascinante aos nossos olhos contemporâneos, tão presos ao material e ao imediato.

Com essa espiritualidade radical é natural que Tarkovsky tenha encontrado oposição no ambiente materialista-histórico da então União Soviética. Tido como sua criação máxima, o místico Andrei Rublev, foi considerado “a-histórico, anti-russo e individualista”. As relações entre o artista e os burocratas da cultura só deterioraram. Ele acusa as autoridades soviéticas de terem mandado um emissário (o também cineasta Sergei Bondarchuk, autor de uma versão respeitada de Anna Karenina) para prejudicá-lo no júri do Festival de Cannes. Responsabiliza seu compatriota pela derrota de Nostalgia, filme que rodou na Itália. Revoltado e, talvez, temeroso de represálias, decidiu não voltar ao país. Seu filme seguinte – o último – O Sacrifício, foi rodado na Suécia. É um testamento e tanto. Rico, doloroso e inesquecível.

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