Cine OP 2022: Um retrato radicalmente poético de Ruy Guerra


Tempo Ruy, de Adilson Mendes, não é uma cinebiografia tradicional, mas um perfil biográfico, ou estudo de caso de um dos nossos principais cineastas, o moçambicano-brasileiro Ruy Guerra. O filme é uma das atrações do Cine OP e está disponível online, no site do festival: www.cineop.com.br.

Ruy fala de sua carreira, de como chegou ao cinema ao escrever em uma revista cultural de Moçambique que o convocou a assumir o papel de crítico. “Tive assim de me interessar por essa arte”, diz o diretor, que logo depois foi estudar no IDHEC, em Paris. Em 1958, aportou no Brasil. Para sorte nossa.

Ruy Guerra é autor de algumas obras-primas do cinema brasileiro, como Os Cafajestes (1962) e Os Fuzis (1964). Com Estorvo (2000), inspirado no romance de Chico Buarque, fez um dos mais inventivos filmes da Retomada do cinema brasileiro, em 2000, ao já antever a possibilidade distópica do país, hoje concretizada. Já veterano, filmava com espírito jovem e transgressor.

Ruy passou a morar no Brasil, mas teve também carreira internacional. Ator de Werner Herzog (em Aguirre, a Cólera dos Deuses), amigo de Gabriel García Marquez (de quem adaptou os romances Cândida Erêndira e Veneno da Madrugada), foi parceiro em teatro e músicas de Chico Buarque, e, como revela, autor de parte da letra de Manhã de Carnaval, do filme Orfeu Negro, de Marcel Camus.

No filme, Ruy lê poemas, trechos e obras suas e dos outros (como Os Sertões, de Euclides da Cunha). Lê também sua correspondência com amigos. Mas se recusa a ler cartas de Glauber Rocha, com quem teve um entrevero mal explicado até hoje. De temperamento quente, avisa o cineasta: “Se colocar no filme eu te processo”.

Sempre em companhia do seu indefectível charuto, Ruy relembra os amigos que perdeu e o passar do tempo: “O problema da velhice é que você vai ficando sozinho. As pessoas com quem você conviveu e que morrem primeiro vão deixando um vazio muito grande em sua vida”. Obs: Jorge Luís Borges, que chegou também à idade avançada, dizia que o mal da velhice é ficar sem contemporâneos. É a mesma ideia. Dessas faltas, a que mais sente é a de Gabriel García Márquez. “Penso nele todos os dias”. E a única forma de se conformar é imaginar Gabo ainda vivo, em sua casa na Cidade do México, a escrever. Uma forma (branda) de esquizofrenia a que recorremos para atenuar o curso do tempo e seus desastres.

Esse passar do tempo é registrado por uma câmera que percorre o próprio corpo do personagem, com as marcas nele assinaladas, enquanto Ruy declama um dos seus versos mais famosos (musicados por Chico Buarque): “Quero ficar no teu corpo como tatuagem/Que é prá tomar coragem/ de seguir viagem/ quando a noite vem.”

É uma das sequências mais bonitas desse ensaio cinematográfico, com seus momentos de dureza e iluminação. Que contemplam também imagens de um Ruy jovem, atrevido, cabeludo, dando entrevista a um programa antigo da TV Cultura e manifestando seu inconformismo e engajamento político.

A figura desse artista múltiplo, poeta, ator, letrista, cineasta, dramaturgo e escritor é retratada com a radicalidade poética que merece, considerando que a poesia pode (na verdade deve) ser radical. Aos 90 anos, Ruy prepara o fim de uma trilogia iniciada com Os Fuzis (1964) e continuada com A Queda (1978). Vida que segue, como dizia João Saldanha.

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