Iraniano ‘Um Herói’ reflete sobre os dilemas morais do nosso tempo


Talvez não seja justo definir o iraniano Asghar Farhadi como cineasta dos dilemas morais. Entendo que seu cinema vai além dessas definições simplistas. Mesmo limitando o campo de visão, enxerga seus protagonistas e o ambiente social de maneira mais ampla do que se pode supor. Porém, mesmo redutora, a definição pode servir como ponto de partida. De fato, Farhadi parece, na maioria das vezes, tomar como ponto de início dos seus trabalhos as alternativas morais a que todos somos obrigados a enfrentar na vida em sociedade. 

Em Um Herói, Rahim Soltani cumpre pena por não ter podido pagar uma dívida. Beneficiado por dois dias de liberdade, tenta negociar com seu credor para que este retire a queixa e o ponha em liberdade. 

A sorte parece estar do seu lado. Sua namorada encontrou na rua uma bolsa contendo moedas de ouro. Vendidas, as moedas representam metade da dívida contraída por Rahim. Mas então começam as dúvidas: será direito aproveitar-se dessas moedas sem antes tentar devolvê-las ao legítimo dono? Depois de tentar vender o ouro e descobrir que o metal caiu de cotação, Rahim decide-se a encontrar o proprietário da bolsa. Uma mulher se apresenta e conta uma história chorosa: era dinheiro economizado para tempos difíceis, escondido do marido, um tipo pouco confiável e dissipador. Bolsa e conteúdo são devolvidos à suposta dona, que desaparece de vista. 

Rahim ficou sem o dinheiro, mas pode lucrar com seu gesto de desprendimento. Os diretores da prisão o elegem como modelo de honestidade e chamam a televisão para entrevistá-lo. Uma liga de beneficência o elege como modelo de virtude. Torna-se conhecido, visto, invejado. Um herói. Esse homem tem de ser libertado. É preciso arrumar um emprego para ele para que possa pagar suas dívidas e retomar sua vida. 

Nesse ponto, o filme parece nos interrogar: onde está a virtude se o gesto de honestidade pode ser mais rentável para Rahim do que se tivesse simplesmente vendido as moedas de ouro que não lhe pertencem?

Há outras complicações que vão surgindo e deixando o espectador cada vez mais imerso em dúvidas. As certezas são poucas. Quem é esse homem? É sincero ou um impostor? Afinal, para despertar tanta admiração, ele teve de fazer algumas adaptações em sua história, que nem por isso parece falsa. Em quem devemos acreditar? Nele ou em seu credor, que também tem suas razões, embora apareça às vezes como o vilão da história?

Tudo parece enrolado, e num nível máximo. Outras questões vão se desdobrando e ficamos intrigados com as particularidades do sistema judicial do país. Certo, se um credor retira a queixa, o devedor é libertado. Mas isso vale até mesmo para um condenado à morte? Se a família pagar determinada quantia, a pena capital será comutada? É o que se deduz de uma entre outras reviravoltas dessa história em espiral. 

Aliás, essa parece ser a tática de roteiro de Farhadi: a cada passo avante, há um impasse à espreita. Recua-se e, muitas vezes, para uma situação mais complexa do que a anterior. É uma ourivesaria de escrita que tem seus momentos de puro barroquismo, tantas são as volutas, os desvios e as incertezas crescentes. 

E, sim, no interior de uma sociedade regida por valores tradicionais, insinua-se também as complicações da modernidade. Aparecem vazamentos de vídeos e denúncias em redes sociais – esses tribunais da inquisição contemporâneos, em que suposições viram certezas e acusações equivalem a condenações. Como os tribunais das redes se tornaram peças importantes da opinião pública, todos as temem, de empresas a órgãos públicos. Nesse mar de influências joga-se o destino de Rahim, vítima e algoz de si mesmo. 

Em O Herói há os dilemas morais – no caso, o principal, livrar-se da prisão ou sustentar a honestidade. Mas, através das espirais em que se desenvolve o caso, surge a questão da imagem e da representação. A humildade de Rahim (notável interpretação de Amir Jadidi) é real ou apenas uma artimanha a mais? Ora o filme tende para uma alternativa, ora para outra. Vale falsear uma história para impor algo que, no fundo, é verdadeiro? Ou seja: o fim justifica os meios? Velhas questões, que ganham novas interpretações em nosso tempo: é suportável que redes moduladas por obscuros algoritmos determinem conteúdos cruciais da vida social, tais como a condenação ou a absolvição de um ser humano?

Sobrecarregados por tantas questões, terminamos de ver Um Herói sem qualquer certeza definida, sem alívio – a não ser um desfecho luminoso, aberto também, mas que sinaliza alguma mínima esperança, também ela difusa. Mas, no todo, a impressão que fica é a de perplexidade diante de uma realidade social mais opaca do que nunca, em sociedades mais fechadas, e nas “abertas” também. Um Herói interroga sobre o grau de liberdade que imaginamos ter e aquele que realmente temos. 

Cotação: ÓTIMO

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