Gramado 2022: A força de Marcélia Cartaxo em ‘A Mãe’


Foto de Maria do Rosário Caetano

GRAMADO – Festivais andam bem quando abrem com um filme forte. Foi o que aconteceu com o Festival de Gramado, que começou na sexta à noite com a exibição do poderoso A Mãe, de Cristiano Burlan. Nele, sobressai a figura maior de Marcélia Cartaxo, como Maria, uma mãe nordestina morando na periferia paulistana, em busca do filho desaparecido. Com esse trabalho, Marcélia iguala os outros dois que a consagraram como uma das grandes atrizes do cinema brasileiro – a Macabéa de A Hora da Estrela e a Pacarrete, do filme homônimo.

Maria é uma dessas “mater dolorosas” que marcam o cinema com sua atuação – há, nela, algo, uma espécie de sentido trágico que faz lembrar a Anna Magnani de Mamma Roma.

Maria vive junto com o filho, Valdo (Dunstin Farias), um rapper rebelde que, certo dia, sai de casa e não volta. Ela o procura em vão. Na escola, nos hospitais, na morgue. Já intuímos que foi vítima da violência policial, esta que se exerce de forma preferencial nos bairros periféricos e contra pobres e pretos. É o Brasil.

Burlan é um cineasta mais conhecido pelos documentários, como o também impressionante Mataram meu Irmão. Ele próprio nascido no Rio Grande do Sul, porém criado no Capão Redondo, zona sul de São Paulo, tem essa experiência da periferia. E da vida dura. Preferiu impregnar seu filme de ficção com a secura que limita o caminho do melodrama talvez proposto pelo tema.

Ao mesmo tempo em passa essa emoção contida pela dureza da vida, A Mãe passeia sua câmera pelas ruas escuras, pela precariedade do bairro situado às margens do Rio Tietê. É um “passeio” pelo Brasil real que não interessa ser mostrado pelo Brasil oficial.

No debate, Marcélia foi consagrada ao falar da experiência de filmagem na Vila Romana. Onde, diz ela, encontrou muita precariedade, muita violência, “mas também muita vida”. É isso. Vida pulsante, mesmo nas piores condições, com um Estado opressor onipresente sob a forma da Polícia Militar, ao mesmo tempo em que esse mesmo Estado fracassa em propiciar lazer, educação, empregos e uma segurança de fato presente para os moradores.

A Mãe acerta também ao conectar-se com outros movimentos de mães em busca de seus filhos, como as Mães de Mayo, e também em ver nos abusos da polícia uma modalidade da ditadura que nunca deixou de existir, apesar da redemocratização formal em 1985 (necessária mas não suficiente).

Nunca se sabe o que se passa na cabeça de um júri de festival – mas vai ser difícil ignorar esse filme.

O outro longa da noite foi o peruano La Pampa, de Dorian Fernandez Moris. O local denominado La Pampa é um enclave na Amazônia peruana, no qual predomina o garimpo ilegal de ouro. Uma terra de ninguém, sob império da violência, com valentões dominando a zona e meninas escravizadas para servir nos diversos prostíbulos da área. O filme assume tom de denúncia e mostra força narrativa para prender a atenção (e os sentimentos) do espectador. Na história, uma sucessão de acasos reúne um foragido da justiça que comprou uma identidade falsa e Reina, uma adolescente foragida dos prostíbulos de La Pampa e em busca de seu pai.

Dois curtas – O Fim da Imagem e Deus não Deixa – compuseram a qualidade da noite no Palácio dos Festivais, que teve ainda a homenagem à atriz gaúcha Araci Esteves. Araci, aos 83 anos, é dona de vasto currículo artístico. Na parte cinematográfica destaca-se seu trabalho em Anahy de las Misiones, de Sérgio Silva (já falecido). A atriz agradeceu ao receber o Troféu Cidade de Gramado com rara inspiração e elegância. Uma grande dama.

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