Gramado 2022: O Clube dos Anjos, os crimes gourmets


GRAMADO – Crimes gourmets – é como também poderia se chamar esse O Clube dos Anjos, de Angelo Defanti, baseado no livro de Luís Fernando Verissimo escrito para a coleção Plenos Pecados. O longa – filmado com rigor e recheado de ótimos atores – agradou o público na segunda noite de competição brasileira.

O Clube dos Anjos mantém uma estrutura rigorosamente teatral, embora faça bom cinema com uma ou outra solução visual bem sacada. É a história de um grupo de amigos que se conhece desde os tempos de colégio e forma um clube de gourmets quando adultos. Reúnem-se em torno da boa comida, bons vinhos e boa conversa, como costumavam fazer os seres humanos civilizados em tempos idos.

Um deles morre e um desconhecido se propõe como membro, preparando refeições sofisticadíssimas. É o papel de Matheus Nachtergaele, aqui na pele de um sibarita algo mefistofélico e que passa a exercer um estranho fascínio sobre o grupo. Acontece que um deles morre no dia seguinte de um desses jantares. E assim vai acontecendo nos jantares subsequentes. A vítima é sempre alguém que amou tanto a refeição que não consegue recusar o último bocado da comida.

A trama tem algo de Hitchcock, mas também da literatura detetivesca de Agatha Christie. É o crime visto como uma das artes, e aqui associado aos prazeres da mesa. Aposta na inteligência – e, claro, numa certa perversão dos sentidos. Os diálogos fluem. Deslizam, o que se entende tanto pela provável qualidade do texto de origem quanto pela categoria do elenco que o interpreta – Otávio Müller, Matheus Nachtergaele, Paulo Miklos, Marco Ricca, Augusto Madeira, André Abujamra, César Mello, Angelo Antonio, Antonio Capelo e Samuel de Assis.

Como se vê, estes compõem um universo exclusivamente masculino, como se observou durante o debate. O diretor admitiu que havia filmado o “clube do Bolinha”, mas também que isso era um indicativo da masculinidade tóxica, que foi colocada na berlinda nos últimos anos. Mas me parece que todas as conotações políticas estão mais no discurso que na própria obra. Esta ressoa uma cultura antiga, a do bom gosto masculino, um tanto elitista e informada, em segundo plano, pela questão do desejo que vai além da necessidade e pode estar associado à morte. A tentação do último bocado pode ser fatal. Mas como resistir a ela?

Ecos do futebol. O concorrente uruguaio tem como título apenas um número – 9. Nueve. Mas que diz muito para quem aprecia o esporte. É o número tradicional do centroavante, do atacante principal, do jogador responsável pelos gols da equipe e portanto muito valorizado. Essa é a história do jovem atleta prestes a se transferir para a cobiçada Premier League, da Inglaterra, quando comete um deslize, tido como grave, durante uma partida da sua seleção contra a Colômbia. O encontramos em plena crise, com seu estafe tentando articular um pedido de desculpas e esperando que tudo caia no esquecimento para não prejudicar as já adiantadas negociações com os britânicos.

A história centra-se nos bastidores dessa relação de negócios que é o futebol moderno, com seu pivô – e motor de todo o resto – colocado à margem, como se fosse um objeto, enquanto os outros tomam suas decisões por ele. Há o empresário e o indefectível “pai do jogador”, que procura interferir em tudo para conduzir a carreira do filho, a nutricionista, o treinador, o amigo do peito sempre por perto, etc. Tudo gira em torno do jovem Christian (Enzo Vogrincic) que sente a vida escapar-lhe das mãos. Até que conhece uma jovem atrevida, Belén (Sofía Lara), capaz de, por sua irreverência, mudar o destino do rapaz.

Como acontece com muitos outros filmes uruguaios, este também prima pela feitura do roteiro. Muito bem escrito, sem falhas, atento a nuances. Algumas digressões e detalhes secundários mostram a importância de se escrever um filme simples porém em camadas de leituras que o enriquecem e, de certa forma, o complexificam. 9, dirigido pela dupla Nicolas Branca e Martin Barrenechea, não é, de modo algum, um “filme sobre futebol”, apenas. É um filme que mostra como o futebol pode ser um posto de observação interessante sobre o funcionamento das sociedades nos quais é o jogo predominante. Casos da uruguaia, da argentina, da brasileira e de tantas outras.

Curtas

Boa surpresa vida do Pará, Benzedeira, de San Marcelo, traz o personagem da benzedeira Maria do Bairro, na verdade Manoel Amorim, conhecedora das ervas da floresta e que ajuda quem a procura. A questão da sexualidade passa de raspão, mas o perfil é dos mais interessantes, com a descrição visual de um ambiente forte, no qual o personagem se move como peixe na água.

Último Domingo, de Joana Claude e Renan Brandão, traz a reencenação da mitologia cristã com a particular interpretação de José Saramago (em O Evangelho Segundo Jesus Cristo). Maria (Jéssica Ellen) recebe a visita inesperada de um andarilho que lhe pede um prato de comida. A visita traz inquietação a José e desconfiança em outros habitantes do local. Filmado em preto-e-branco, muito bonito e cheio de evocações que pairam no ar, em forma de interrogações.

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