Gramado 2022: A Porta ao Lado, moderninho e inofesivo


Gramado – A Porta ao Lado, filme sobre relacionamentos de Julia Rezende, é o quinto longa-metragem brasileiro no Festival de Gramado.

A história é a seguinte: Mari (Leticia Colin) e Rafa (Dan Ferreira) vivem um casamento tradicional. Outro casal – Isis (Bárbara Paz) e Fred (Túlio Starling) – se muda para o apartamento ao lado. Nasce a amizade entre eles e, com isso, uma série de imbróglios existenciais e amorosos. Não se trata de uma comédia romântica, mesmo porque há pouquíssimo humor em cena.

A ideia é contrapor um casal “careta” a outro “moderninho”, que pratica um tipo de casamento aberto. Da fricção, espera-se, poderia nascer algum tipo de reflexão sobre os modernos relacionamentos amorosos, algum tipo de nova configuração, talvez.

Bem, como se sabe, pouquíssimo se inova em matéria amorosa, mas pode-se inovar na maneira como o cinema (as artes em geral) aborda o tema. Fala-se em traição, por exemplo, e se pergunta sobre o que isso significa. Para um casal, pode ser o óbvio, a exclusividade sobre o outro; para outro casal, é mais sutil, transcende o sexo e reside num tipo de pacto selado entre eles – no caso, a decisão de não ter filhos.

Essas questões antigas vêm embaladas em envelope moderno. Gente bonita, charmosa, bem de vida, exercendo profissões da moda, com vocação natureba, etc. Isso e mais os ingredientes obrigatórios de afirmações identitárias, como relações interraciais e um aceno discreto à homoafetividade. Tudo na medida. Tudo parece calibrado para se inserir como produto aceitável junto a um público descolado – e talvez exaurido pelo pseudomoralismo que tenta se impor ao país através de grupos religiosos e/ou conservadores e oportunistas. Mas a neocarolice mereceria um antídoto mais radical.

O resultado me pareceu um filme simpático, um tanto longo, que apesar de tudo se deixa ver. Sem, no entanto, ousar qualquer profundidade, sem produzir qualquer incômodo, ou propor aspereza às perguntas que apenas formula, sem descer abaixo da linha de superfície. Nada de novo no front.

Quando Escurece

No original, Cuando Oscurece (ARG/URU), de Néstor Mazzini, é um curioso thriller psicológico, segundo filme de trilogia prevista sobre a separação de um casal. Pedro (César Trancoso) sai em viagem de carro com a filha pequena. Aos poucos, descobrimos, junto com a criança, que não se trata de uma viagem qualquer, mas de algo mais grave que pode estar acontecendo.

Num caso em que, na contraluz, existe um casamento desfeito e uma luta pela guarda da filha Florência, colabora muito a interpretação cool de Trancoso, ator de recursos. Sabe que seria fácil impor uma caracterização explicitamente maléfica ao personagem – e assim destruiria a obra. Prefere o trabalho em nuances e com uma tensão progressiva, à maneira de um parafuso que se aperta aos pouquinhos.

O filme é testemunho do talento dos hermanos em trabalhar com elementos mínimos, um roteiro bem-feito e filmagem eficaz para plantar uma inquietação crescente na alma do espectador.

No debate foi interessante ver a angústia que o filme produziu em algumas espectadoras. Uma delas chegou a se queixar da duração excessiva do filme. Ora, são apenas 76 minutos. Tipo obra enxuta. Mas que rende uma tensão e tanto.

Curtas

Dois curtas interessantes, vindos um do nordeste outro do norte do país.

O Pato (PB), de Antonio Galdino usa de um intenso registro fotográfico para filmar a alusiva relação de abuso que sofre uma mulher da zona rural.

Solitude (AP), de Tami Martins e Aron Miranda, é uma animação muito bonita, que expressa em tom poético a mesma questão do curta paraibano – a relação de abuso sofrida pelas mulheres.

Longas gaúchos

Tenho assistido aos longas gaúchos, que passam na sessão da tarde do festival:

Campo Grande É o Céu – Mostardas, de Bruna Giuliano, Jhonatan Gomes e Sérgio Guidoux, mostra a luta de populações quilombolas do sul do país para manter vivas as tradições de seus ancestrais. Muito convencional como documentário, traz personagens bastante interessantes.

Dog Never Raised – Cachorro Inédito, de Bruno de Oliveira, tendo por personagem um ladrão de rua e sua obsessão em fazer um filme. Obra de cinéfilo, autorreferente e, me pareceu, sem maior interesse. Sente-se que existe talento por trás dessa obra vazia. Talento que pode vir a aflorar em trabalhos menos umbilicais.

Cinco Casas, de Bruno Gularte Ribeiro. Este vi no Festival do Ceará do ano passado – aliás, foi o vencedor do festival. Me parece uma obra bastante consistente. Ponho aqui o link que conduz à crítica que escrevi na ocasião. https://cultura.estadao.com.br/blogs/luiz-zanin/cine-ceara-2021-5-casas-ou-a-memoria-em-questao/

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