Gramado 2022: Tinnitus e o rigor das imagens



GRAMADO – Último concorrente brasileiro de Gramado, Tinnitus foi exibido ontem à noite no Palácio dos Festivais. Mostrou o cinema elaborado de Gregório Graziosi, um diretor que trabalha muito rente à linguagem cinematográfica e, por isso, às vezes é chamado de formalista.

Aliás, o debate abriu com o diretor expondo um impressionante repertório de referências depositado no filme, o que é um exercício de cinefilia, mas em por isso indispensável à compreensão da obra.

Graziosi mergulha de cabeça no universo esportivo. Literalmente, pois trata de atletas de saltos ornamentais. Uma delas, Marina (Joana de Verona) é atingida pelo mal que dá título ao filme, uma espécie particular de surdez que comporta inclusive alucinações auditivas.

A certa altura, Marina, que desenvolve uma relação de extrema rivalidade com sua companheira de dupla, resolve abandonar o esporte e vai ganhar a vida num aquário, fantasiada de sereia. Parece um abandono, mas não é, porque termina por voltar ao esporte e suas relações competitivas.

O filme em si é muito sofisticado e, a meu ver, trabalha em torno das relações de rivalidade muito comuns no esporte de rendimento, no qual frações de excelência determinam a diferença entre o sucesso e o fracasso. Tempo, no caso dos esportes de velocidade, movimento nos que se medem por notas dos jurados, como nos saltos ornamentais. Tudo isso é fascinante e, em si, é um microcosmo condensado da competição pela vida, que atinge todos nós e a todos angustia, seja qual for a nossa área de atuação.

A outra vertente, na minha leitura, é o que Susan Sontag chama de “a doença como metáfora”. Daí que não me parece gratuito que a célula original de inspiração do filme seja uma disfunção perceptiva, que pode trazer imenso sofrimento mental a quem dela padece.

Imersão

O chileno Imersão, de Nicolas Postiglione, é um thriller psicológico típico. Ricardo (Alfredo Castro) vai com duas filhas visitar a casa da família à beira de um lago. O imóvel está à venda e abandonado. Ricardo leva as filhas para um passeio de barco. Avistam três rapazes pedindo socorro de um bote. Temeroso, Ricardo passa reto e passa a ser cobrado pelas filhas, em particular por uma delas. Decidem voltar à procura dos náufragos. Encontram dois deles; um terceiro está desaparecido. Saem à sua procura.

A tensão se baseia no preconceito. Ricardo é rico a ponto de possuir um veleiro. Despreza os índios mapuche que, segundo ele, infestam a região. Os náufragos têm para ele, rostos de marginais. Serão perigosos?

O filme tem qualidades. Envolve. E “comenta” esse nosso tecido social feito de desigualdades extremas, preconceitos e sentido de exclusão. Obra interessante. E Alfredo Castro é um mestre. Dá-se bem em qualquer papel que represente.

O festival vai chegando ao fim. Mais um. Hoje à noite, passa Um Par Para Chamar de Meu, vencedor da mostra de documentários, que passou no Canal Brasil e na Globoplay mas não no presencial. Amanhã acontece a entrega dos Kikitos, com transmissão pelo Canal Brasil a partir de 20h45.

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