‘Maior que o Mundo’, comédia incômoda para o neopuritanismo contemporâneo


Depois do Festival de Gramado, tento tirar o atraso das estreias fazendo uma meia maratona por dia. Tenho visto coisas interessantes. E também me preocupo com a sobrevivência das salas de cinema, invariavelmente vazias. Cheguei a assistir a um filme sozinho. Como vai ser quando apenas os blockbusters conseguirem encher as salas de cinema? Como vai sobreviver o circuito de “arte e ensaio”, como se diz na França?

Um dos filmes que me chamaram a atenção foi Maior que o Mundo, de Beto Marquez, baseado em livro de Reinaldo Moraes. Estreou semana passada e tentei descobrir o que meus colegas tinham pensado a respeito. Não encontrei nada. Nadinha. Parece que ninguém deu bola para o filme.

E, no entanto, ele é, no mínimo, interessante. Eriberto Leão (que está também em Assalto na Paulista, estreia desta semana) é Kbeto, um escritor maldito em crise de inspiração. Enquanto esta deusa volúvel, a inspiração, não vem, ele se diverte enchendo a cara, se drogando e fazendo sexo. Uma de suas amigas é Luana Piovani. Tem uma filha chamada João (Maria Flor). E assim vai.

Até o dia em que encontra numa caçamba (onde cai de bêbado) um diário tosco porém criativo. Decide chupar o material, escreve um livro e faz um tremendo sucesso. Mas há um preço a pagar.

Bem, temos aí o microcosmo de Reinaldo Moraes (que faz uma ponta no filme). Os bares do Baixo Augusta, drogas, sexo e rock’roll. De novidade, a presença de um anão bastante carismático…e perigoso.

Não conheço o diretor, mas o filme, em tom de comédia, tem agilidade e uma disposição de ir além das boas maneiras, do politicamente correto e do neopuritanismo que nos assola (inclusive em setores bem intencionados da esquerda). Ótima fotografia de Pedro Farkas e elenco muito bom, a começar por Eriberto. Luana, madura, está ótima também, assim como Maria Flor.

Sem ser nenhuma obra-prima, longe disso, Maior que o Mundo é uma espécie de refresco no ambiente opressivo em que vivemos, com a direita fascista e carola pressionando de um lado e gente ofendida por qualquer motivo empurrando de outro.

Não está fácil e a margem para o pensamento libertário parece cada vez mais estreita. Talvez por isso o filme tenha caído no vazio. É fora de época. A direita tem ojeriza desse mundo que ele retrata. E a esquerda namastê também.

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