Um continente chamado Godard


Como descrever um continente inteiro em poucas linhas? É o desafio que devemos enfrentar agora que a morte coloca ponto final na obra de um gigante do cinema como Jean-Luc Godard.

Ele teve vida longa, 91 anos, e produziu muito. Se consultarmos o site de cinema IMDB encontraremos mais de 127 obras audiovisuais associadas a seu nome. O desafio de abarcar o continente é colocado tanto pela extensão da obra quanto por sua diversidade. Godard destinou seu trabalho ao cinema, mas também ao vídeo e à televisão. Fez filmes em preto e branco, a cores e em 3D. Trabalhou em celulóide, vídeo e digital. Foi um dos cruzados da chamada “política dos autores”, característica da nouvelle vague francesa, mas terminou por defender a abolição da autoria. Começa por um diálogo com o cinema norte-americano e termina fazendo filmes não-narrativos, dispositivos ensaísticos sobre a vida, a política, as artes e, claro, sobre o próprio cinema.

Godard sobreviveu a todos os seus companheiros de nouvelle vague (François Truffaut, Claude Chabrol, Jacques Rivette e Eric Rohmer). Não fez o primeiro longa do grupo. Truffaut já estreara com Os Incompreendidos (1959) e Chabrol, antes dele, com Nas Garras do Vício (1958). Porém, como lembra o crítico e historiador Jean Tulard, o verdadeiro manifesto da nouvelle vague é Acossado, de 1960, filme que deixou todo mundo chapado. Ou contrariado.

Partindo de um roteiro de Truffaut, Godard põe a forma cinematográfica de cabeça para baixo com seus cortes abruptos de câmera e planos longos pelas ruas de Paris. É notável a liberdade com que segue esse par improvável formado por um pequeno bandido (Jean-Paul Belmondo) e a garota americana que vende jornais e anda atrás de uma aventura (Jean Seberg). Os cortes abruptos da narrativa soaram aos tradicionalistas como erros técnicos. Engano. Godard criava e o que inventava era incorporado à linguagem do cinema moderno. Aliás, tudo, nesse filme, respira modernidade – do ritmo das cenas à música de jazz, a liberdade com o sexo e o comportamento em geral, o jeito cool de Belmondo e a ternura despojada de Seberg, inesquecível com seus olhos intensos e cabelinho curto. Era todo um programa para uma era de contestação e aspiração à liberdade que culminaria com o maio de 1968 em Paris. Acossado rodou mundo e influenciou várias cinematografias, inclusive a brasileira.

Se Godard era o mais vanguardista de toda a turma da nouvelle vague, era também o mais político. Quando seus companheiros fechavam um pouco os olhos para a questão argelina, que dividia a França naquela época da Guerra da Argélia (1958-1962), Godard fazia filmes engajados como Les Carabiniers (1962) e Le Petit Soldat (1963). Engajados, porém nada didáticos.

Praticamente ao mesmo tempo, lançava uma comédia de ruptura como Uma Mulher É uma Mulher (1961) e aquele que, para muitos é seu filme mais lindo e tocante, Viver sua Vida (1962), a comovente história de Nana (Ana Karina) em doze quadros, desde seu trabalho num magazine até a prostituição. Há uma referência à Joana D’Arc de Carl Dreyer, cujas imagens comovem Nana – e o espectador.

Seria o mais belo dos filmes de Godard? Há controvérsias, porque existe O Desprezo (1963). Baseado no romance do italiano Alberto Moravia, é considerado um dos mais deslumbrantes trabalhos de Godard. Brigitte Bardot, no ápice da beleza, contracena com Michel Piccoli. São marido e mulher numa trama sinuosa, filmada na ilha de Capri, em que o amor cede vez a seu contrário, a frieza. E o desprezo, como diz o título. O impacto visual dessa obra a cores é impressionante. O grande diretor alemão Fritz Lang trabalha como ator na obra.

Como o íntimo e o social encontram-se presentes na obra de Godard (são comunicantes e não se excluem), ele lança outro filme fundamental em 1967, A Chinesa, que claramente prefigura o maio de 1968 com sua discussão sobre os rumos da contestação política e do maoísmo.

No final dos anos 1960, o militante Jean-Luc, funda, com Jean-Pierre Gorin, o Grupo Dziga Vertov, de tendência maoísta. Um dos líderes da chamada “política dos autores”, da revista Cahiers Du Cinéma, Godard agora abraça a tese de um cinema coletivo e militante. O nome é tirado do cineasta de Câmera-Olho, Vertov (1896-1954), um dos pontas de lança da vanguarda soviética. Para Gorin e Godard, a questão não era fazer “filmes políticos”, mas fazer politicamente filmes políticos. Recusam-se a se comportar como “profissionais” do cinema, transformando-se em militantes da revolução. A questão passa a ser “para quem” e “contra quem” se faz o cinema.

Dessa fase é Vento do Leste (1970). Um filme-ensaio, protótipo da época mais engajada do cinema de Godard. Nele, são discutidos os caminhos possíveis do cinema revolucionário e da alternativa socialista de organização social. Glauber Rocha participa de uma das sequências do filme, encenando a encruzilhada do cinema no então chamado Terceiro Mundo.

Já História (s) do Cinema é sua ruptura de maturidade. Realizado entre 1988 e 1998, em vídeo, revela a preocupação de Godard não apenas com os rumos do cinema, mas com a própria história da civilização. Nos anos 1960, François Truffaut observa que os 12 primeiros filmes de Godard não contêm a palavra “passado”. Como se o cineasta só olhasse para frente. Em História (s) do Cinema, pelo contrário, o olhar recua para contemplar a densidade da história e, de certa forma, a sua tragédia.

Como observa seu biógrafo Antoine de Baecque (Godard, Biographie, Grasset, 2010, 940 págs.), essas datas marcam uma encruzilhada tanto pessoal como histórica. Godard chega aos 60 anos e o cinema, como invenção, ao centenário. A história muda bruscamente com o fim do comunismo e da Guerra Fria. O homem de esquerda, o revolucionário que havia antevisto o Maio de 1968 um ano antes, com A Chinesa, vê o capitalismo ganhar a parada. O que virá a seguir? Godard sente que o momento da consciência histórica se impõe. Daí essa obra impressionante, contraditória, barroca e desconcertante, de 4h25 minutos, dividida em oito capítulos. No início de um deles, vê-se na tela a dedicatória – a John Cassavetes e a Glauber Rocha.

Desde então, Godard não deixou de se reinventar, em filmes ensaísticos e sempre ligando o peso histórico à contemporaneidade – tais como Forever Mozart (1996), Elogio do Amor (2001), Nossa Música (2004), Filme Socialismo (2010) até chegar ao extraordinário Adeus à Linguagem, seu experimento em 3D. Essa inquietação estética e política, inalterada num homem então com quase 85 anos, pode não ter contribuído para torná-lo mais popular ao espectador médio, que vai ao cinema em busca de diversão. Mas solidificou sua posição filosófica de quem pensa o cinema usando o próprio cinema como ferramenta de reflexão.

Haveria ainda o perturbador Palavra e Imagem (2019). Palavra e Imagem, tradução de Le Livre d’Image, no original francês.

É muito esclarecedor, por exemplo, ver que o filme se inicie por uma espécie de “ode às mãos” e não ao pensamento. Contradição apenas aparente, no entanto, pois, como lá se diz, o homem é esse animal capaz de “pensar com as mãos”. É o que faz o pintor (a pintura é “cosa mentale”, dizia Leonardo), o escultor, o arquiteto. Mas também o escritor e, claro, o cineasta. Godard pensa com as mãos – e com os olhos, os ouvidos, o cérebro – ao manipular imagens, sons e pensamentos alheios, alterá-los e colocá-los numa disposição de reflexão geral sobre o mundo, e, nele, sobre as pessoas e as coisas.

Godard justapõe muitas imagens de filmes – inclusive dos seus próprios – a cenas documentais. Muitas cenas de guerra e sofrimento. As Histórias do século 20, e a do 21, são sangrentas. Definitivamente, a civilização não triunfou e o cinema registra esse fracasso.

O “mundo árabe” ocupa um longo lugar de destaque na parte final. Prova de que a velha questão “Oriente e Ocidente” retorna com força, como sabemos todos. “O Oriente é o Oriente e o Ocidente é o Ocidente, e jamais se encontrarão”, escrevia Kipling no apogeu do colonialismo. O que mudou?

Esta é apenas uma das inúmeras questões levantadas por este filme que fala da luta entre civilização e barbárie e encontra na arte um local privilegiado, porém não idealizado. Lembrem da frase do próprio Godard: “a cultura é a norma e a arte é a exceção; é próprio da norma matar a exceção”.

Essa arte, cada vez mais distante de uma narratividade miúda, de suas historinhas com começo, meio e fim, pode às vezes ser um entrave para o espectador, acostumado à linearidade da TV e dos filmes comerciais. Mas sua disposição guerrilheira também pode ser vista de outra forma, como desafio e estímulo. E, afinal, sua fragmentação estética não está tão distante assim da nossa experiência cotidiana. Durante um dia, lemos os jornais, escutamos ou vemos as notícias, lemos um romance e páginas de um livro de ensaios, escrevemos, atendemos ao telefone, respondemos e-mails e zaps, ouvimos música, trabalhamos em tarefas diversas, conversamos com os outros, podemos ver vídeos e um filminho antes de dormir. Nem por isso nosso cérebro entra em colapso, pois dispõe de estruturas para ordenar o caos. O dia pode ter se estilhaçado em mil tarefas distintas. Mas temos a sensação a posteriori de que tudo foi linear e em ordem. Por que ficaríamos então indefesos diante de um filme de Jean-Luc Godard? Basta experimentar qualquer um dos capítulos dessa obra magnífica, para sempre à disposição de quem tenha o cinema como arte de invenção, reflexão e conhecimento do mundo e de si próprio. Tudo isso devemos a Godard.

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6 comentários em “Um continente chamado Godard

  1. Zanin, se você puder responder à minha pergunta, serei muito grato. Que a Inglaterra possa ter “evitado” a Nova Onda dos franceses é passível de compreensão, mas e a Itália? A esquerda italiana também se esquivou da Nouvelle Vague? Estou esquecendo ou desconheço algum filme clássico? Abraço.

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    1. Olá, desculpe a demora. Estava em Vitória para o festival, sem tempo para respirar. Quanto à Itália, me lembro de ter lido uma explicação bastante razoável para esse fenômeno. Na Itália houve, no após-guerra, o neo-realismo que, na verdade, influenciou todos os “novos cinemas” que nasceram na virada dos anos 1950 para os 1960. Foram movimentos de ruptura, como a própria nouvelle vague contra o “Cinéma de qualité” francês. Na Itália, não houve isso. O neorrealismo se esgotou com o tempo, mas não houve uma ruptura com ele e sim uma continuidade sob outras formas. Por exemplo, Fellini e Visconti têm origem no neorrealismo, evoluíram para cinemas muito pessoais, diferentes do neorrealismo, mas não romperam com ele. Pasolini vem depois, bebe na água do neorrealismo (O Evangelho SEgundo Sao Matheus), vai para outra parte, mas também não rompe. A força da matriz neorrealista é tão grande que parece inibir essas rupturas das quais são feitas as “revoluções”, como a própria nouvelle vague, o new cinema ingles, o novo cinema alemão….e o próprio cinema novo brasileiro. Enfim, é uma hipótese, mas me parece fazer sentido. Abraço. Zanin

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      1. Obrigado peça resposta, Zanin. Pois é, também fiquei com esta impressão de que o neorrealismo e o cinema de autor acabaram embotando a recepção italiana da nouvelle vague. Mas é muito curioso quando lembramos que o a indústria cinematográfica italiana estava a todo vapor. O cinema comercial vivia um boom com os western spaghetti, os giallo, as comédias eróticas, os policiais e os filmes de guerra. É intrigante que, diante de tantos recursos disponíveis, ninguém tenha saído com uma “câmera na mão”. Afinal, a nouvelle vague frutificou em países com muito menos meios disponíveis como os da cortina de ferro e o próprio Brasil. Abraço.

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  2. Caro Luiz Zanin,

    Godard foi um artista sui generis. Poucos exerceram tanta influência quatno ele no século passado. Raros são os casos onde linguagem e mensagem, forma e conteúdo, caminham juntos, orgânica e sinergeticamente. sasdadqwe

    Estava tentando me lembrar da recepção da nouvelle vague na Itália e na Inglaterra. Não consegui recordar-me de nada. Com certeza, deve haver alguns filmes. Zanin, tem algum digno de nota?

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