A Mãe Coragem de Marcélia Cartaxo


O título seco – A Mãe – remete, talvez de maneira inconsciente, às obras de Máximo Gorki e de Bertolt Brecht. De qualquer forma, no filme de Cristiano Burlan, Maria, a mãe interpretada por Marcélia Cartaxo, incorpora em parte as ideias rebeldes do filho, como em Gorki no romance A Mãe. Diferentemente da peça de Brecht, Mãe Coragem e seus Filhos, ela não vive dos restos de uma guerra, mas vive a própria guerra. E esta leva-lhe o filho único. A guerra atende pelo nome de Brasil e Maria, vinda do interior da Paraíba, mora numa zona de conflito na periferia paulistana em companhia do filho Valdo (Dunstin Farias).

O filme começa por apresentar a relação entre mãe e filho. Dormem no mesmo quarto, na casinha modesta de periferia. Ela sai para trabalhar no centro da cidade, ele encontra um amigo, pega seu skate e os dois saem pelas ruas do bairro em busca do que fazer.

Há um interregno narrativo aqui. A câmera acompanha Maria no centro de São Paulo, vendendo óculos de grife (falsificados) para os passantes. Chega o rapa, ela tem de fugir para salvar a mercadoria. É uma formiguinha no ameaçador turbilhão da cidade. É também o primeiro encontro da personagem com as “autoridades”, esses funcionários que, em tese, mas apenas em tese, deveriam disciplinar a convivência social na metrópole. Outros encontros desse tipo virão.

O fato é que Valdo não volta à casa. Maria o procura por toda parte. Na escola, no hospital, na morgue. Mães sabem que, quando os filhos não aparecem, pode-se pensar no pior.

E é agora, na adversidade, de mulher miúda e assustadiça que foge da fiscalização da prefeitura, a mãe transforma-se numa leoa em busca do filho. Capaz de enfrentar de traficantes a tiras da PM e delegados de polícia, sem papas na língua e sem medo porque, desconfia, o pior já lhe aconteceu e nada mais pode atingi-la com tanta intensidade quanto o desaparecimento do filho. Maria transforma-se em Mãe Coragem.

Aqui entra em cena a força interpretativa de Marcélia Cartaxo, atriz paraibana que tem, em A Mãe, um papel à altura da personagem Macabéa, que viveu ainda mocinha em A Hora da Estrela, de Suzana Amaral, e lhe valeu um Urso de Prata no Festival de Berlim. Ou a madura bailarina Pacarrete, no filme homônimo de Allan Deberton. Em ambos, Marcélia torna-se comovente porque se refugia numa ingenuidade que beira à pureza absoluta, aquela que tem como paradigma o príncipe Michkin em O Idiota, de Dostoiévski. Num mundo sórdido, os puros tornam-se santos. Agigantam-se e seu destino é o sacrifício.

Já em A Mãe, o sofrimento leva a personagem à luta, ainda que quixotesca. Enfrenta de policiais ao dono do tráfico no bairro. Todos querem que ela se cale. Ela exige apenas saber o destino do filho. Se estiver morto, que seu corpo lhe seja entregue e tenha funeral digno, como uma Antígona contemporânea e vivendo em um país desesperado. Encontra-se com uma ativista (Helena Ignês), que evoca seu próprio filho desaparecido na ditadura. Encontra-se com uma ativista (real) dos direitos humanos, Débora Silva, que representa as Mães de Maio, em busca de justiça para os filhos mortos em operações policiais.

As duas passagens se enlaçam para lembrar a cicatriz histórica da ditadura e como, findo o período autoritário, a democracia não se completou de todo. Ao menos para a grande maioria da população brasileira. Quem vive na periferia sabe. Esse desenvolvimento dá caráter político ao drama pessoal de Maria e seu filho. Tira o filme do pessoal e coloca-o na dimensão coletiva.

A radiografia da vida na periferia é de autoria de alguém que conhece o ambiente e já sofreu, em sua própria carne, os efeitos da violência – Cristiano Burlan é diretor do potente documentário de título auto-explicativo Mataram Meu Irmão.

O refinamento cinematográfico de algumas passagens – como a não-linearidade temporal, planos sequência em que passado e presente se abraçam – não se resumem a demonstrações de virtuosismo, ou mero esteticismo. Ajustam-se à narrativa e sugam o espectador para a voragem da tragédia social brasileira.

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