Brasília 2022: Canção ao Longe e o pai em questão


BRASÍLIA – O Festival de Brasília apresenta um panorama engajado e tumultuado, que é o do Brasil atual. Nesse sentido, Canção ao Longe (MG), de Clarissa Campolina, surge como uma espécie de refrescante ponto fora da curva ao acompanhar a trajetória de uma moça, Jimena (Monica Maria), em busca de si mesma e de um pai distante.

Jimena mora com a mãe e mantém correspondência com o pai, um peruano que voltou para sua terra e nunca mais visitou a família deixada no Brasil.

O filme é delicado; mergulhado num ambiente artístico (a música), respira uma suave humanidade. Um bafejo do cinema mineiro que, de modo geral, trabalha o afeto mas não de forma agressiva. Introduz sutilezas tanto na construção da obra como nos sentimentos que a inspiram. Parece apenas sugerir e não impor ideias ao espectador. Enfim, uma forma não agressiva de arte.

No entanto, há muitas camadas de inquietação neste filme delicado. Para citar uma delas: Jimena é filha de pai negro e mãe branca, o que lhe cria certa dificuldade de identidade racial, ou pelo menos ela assim o sente.

De qualquer forma, é uma historia de construção de identidade própria, num ambiente de silêncios, pouco propício a definições, agravado pela ausência da figura paterna, presente apenas por cartas escritas de maneira esporádica. Até mesmo esse tipo de correspondência faz de Canção ao Longe um filme em aparência deslocado no tempo e no espaço – e isso é um elogio e um benefício à sensibilidade de quem o vê.

Curtas

Capuchinhos (PE), de Victor Laet, elege os bugs de computador ao patamar de forma estética. Há quem tenha se confundido, pensando que o filme estivesse com defeito. Diz o diretor que é proposital e uma forma de provocação. OK.

Nem o Mar Tem Tanta Água (PB), de Mayara Valentim, é um filme de grupo, de pandemia, de pessoas que moram juntas e também de amor entre elas – e também fora do âmbito doméstico. Muito bem filmado, sobretudo em sua segunda parte, integra-se ao sistema discursivo hegemônico neste festival.

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2 comentários em “Brasília 2022: Canção ao Longe e o pai em questão

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