A Invenção do Outro, doc comovente e sofisticado, vence o 55º Festival de Brasília


BRASÍLIA- A Invenção do Outro, filme impressionante e sofisticado sobre uma expedição em terras indígenas, foi o grande vencedor do 55º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. O documentário, dirigido por Bruno Jorge, acompanha o contato com os indígenas da etnia Korubo, comandado por Bruno Pereira, indigenista assassinado junto com o jornalista Dom Phillips em junho de 2022. Além do prêmio principal de melhor longa, venceu os Candangos de melhor fotografia, edição de som e montagem.

Não é exagero dizer que se trata de um filme estupendo, fora de série e destinado a marcar presença entre as obras incontornáveis do cinema de temática indígena. O cineasta foi contatado pelo indigenista Bruno Pereira para acompanhar a expedição que tentaria contato com índios Korubo, que estavam em guerra com os Matis. As filmagens se dão desde a saída de Tabatinga (Amazonas) até o encontro com os indígenas. Um trabalho obsessivo, que rendeu cerca de 60 horas de material. Este levou três anos e meio para ser montado – pelo próprio cineasta. 

O resultado é uma obra imersiva, lindamente filmada e registro de uma interação intensa e respeitosa entre indígenas e indigenistas. Uma trilha sonora perturbadora às vezes pontua esse mergulho nas profundezas do Amazonas, em que a ameaça difusa de morte é uma companhia constante. 

Algumas sequências-chave – como a do reencontro de indígenas com parentes – são reiteradas, sob a forma de transe, que envolve também o espectador. É um filme sensorial, porém muito pensado e construído. Como seu título indica, é, entre outras coisas, esse problemático encontro com o Outro. Sempre lembrando que, em relação aos povos originários, os Outros somos nós. 

Mato Seco em Chamas foi também muito premiado. Sai desta edição do Festival de Brasília com sete Candangos: melhor direção, roteiro, direção de arte, trilha sonora, atriz (dividido entre Léa Alves e Joana Darc), atriz coadjuvante (Andrea Vieira) e ator coadjuvante (dado ao coro de motoqueiros que atua no filme).

Mato Seco em Chamas (DF), de Adirley Queirós e Joana Pimenta, ganhou a plateia do Cine Brasília com sua força sensorial e também com seu conteúdo político. Nada didático, aliás, mas que joga na tela um Brasil pós-distópico, irrespirável mas cheio de vitalidade, visto pelo olhar da periferia. 

No caso, o olhar da Ceilândia, uma das cidades-satélites de Brasília. É lá que se ambienta a história, ou melhor, a lenda das “gasolineiras” Léa, Chitara e Andréia, que descobrem petróleo na quebrada onde vivem, passam a refiná-lo e vendê-lo aos motoqueiros locais. As personagens são interpretadas por atrizes “naturais”, mas seria um erro, diz Adirley, dizer que vivem a si próprias. “São atrizes mesmo, grandes atrizes e não falam simplesmente de suas vidas, mas as inventam”, diz o diretor. 

O filme é bastante complexo e torna obsoleta a separação entre ficção e documentário. É uma coisa ou outra e, com frequência, as duas ou nenhuma delas. Instala-se num campo mítico, da invenção de uma narrativa com vocação para se tornar lenda no futuro. Incorpora cenas de uma das personagens num culto evangélico, cenas de bolsonaristas comemorando a eleição do seu “mito” em 2018 e as mescla a diálogos ficcionais entre as atrizes. Em particular entre Chitara e Léa, que são meia-irmãs no filme. 

Em meio a essa complexidade que não se decifra de cara, o espectador é levado pela força sensorial das imagens e dos sons; e, também, pela naturalidade em que os diálogos entre as personagens desvelam esse Brasil periférico, pouco acessível ao dogmatismo estético das elites e da classe média. Tem-se aí um cinema lumpen, orgulhoso de sua origem, e que não se dobra a formas convencionais de filmagem e edição, nem da linearidade ou do bom gosto bem pensante. 

Podemos não decifrar de imediato suas falas, imagens e múltiplas camadas. Mas temos certeza de que diante de nós temos essa figura paradoxal e contraditória chamada Brasil.

Eram mesmo os dois filmes mais fortes e o júri acertou ao concentrar neles os prêmios principais.

Pouca coisa sobrou para os outros longas em competição. Rumo, de Bruno Victor e Marcus Azevedo, ficou com o troféu do Júri Popular e o Prêmio Especial do Júri. Carlos Francisco, apesar de atuação breve, foi considerado melhor ator por seu trabalho em Canção ao Longe, de Clarissa Campolina.

A cerimônia de premiação, inflada por discursos repetitivos dos premiados, arrastou-se até a madrugada de segunda-feira. Os últimos prêmios, os principais, foram anunciados para uma plateia já reduzida e combalida pelo sono. Foi a nota destoante de um bonito festival, que tanto na escolha dos concorrentes como na premiação, destacou as narrativas pretas, periféricas e indígenas. Foi uma opção estética e política. O Brasil real e profundo foi o protagonista desta 55ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

Confira a lista de vencedores da 55ª edição do Festival de Brasília

Mostra Competitiva Nacional

Longas-metragens

A Invenção do Outro de Bruno Jorge

Melhor Longa-metragem pelo Júri Oficial

Rumo de Bruno Victor e Marcus Azevedo

Melhor Longa-metragem pelo Júri Popular

Adirley Queirós e Joana Pimenta por Mato Seco em Chamas

Melhor Direção

Lea Alves e Joana Darc em Mato Seco em Chamas

Melhor Atriz

Andreia Vieira em Mato Seco em Chamas

Melhor Atriz Coadjuvante

Carlos Francisco em Canção ao Longe de Clarissa Campolina

Melhor Ator

Para o coro de motoqueiros de Mato Seco em Chamas

Melhor Ator Coadjuvante

Adirley Queirós e Joana Pimenta por Mato Seco em Chamas

Melhor Roteiro

Bruno Jorge por A Invenção do Outro

Melhor Fotografia

Denise Vieira por Mato Seco em Chamas

Melhor Direção de Arte

Muleka 100 Kalcinha por Mato Seco em Chamas

Melhor Trilha Sonora

Bruno Palazzo e Bruno Jorge por A Invenção do Outro

Melhor Edição de Som

Bruno Jorge por A Invenção do Outro

Melhor Montagem

Rumo de Bruno Victor e Marcus Azevedo

Prêmio Especial do Júri

Mostra Competitiva Nacional

Curtas-metragens

Escasso, da Encruza (Clara Anastácia e Gabriela Gaia Meirelles)

Melhor Curta-Metragem pelo Júri Oficial

Calunga Maior de Thiago Costa

Melhor Curta-metragem pelo Júri Popular

Clara Anastácia e Gabriela Gaia Meirelles por Escasso

Melhor Direção

Clara Anastácia em Escasso de Clara Anastácia e Gabriela Gaia Meirelles

Melhor Atriz

Giovanni Venturini em Big Bang de Carlos Segundo

Melhor Ator

Rogério Borges por Lugar de Ladson de Rogério Borges

Melhor Roteiro

Yuji Kodato por Lugar de Ladson de Rogério Borges

Melhor Fotografia

Joana Claude por Capuchinhos de Victor Laet

Melhor Direção de Arte

Podeserdesligado em Calunga Maior de Thiago Costa

Melhor Trilha Sonora

Som de Black Maria (Isadora Maria Torres e Léo Bortolin) por Lugar de Ladson de Rogério Borges

Melhor Edição de Som

Edson Lemos Akatoy por Calunga Maior de Thiago Costa e Nem o mar tem tanta água de Mayara Valentim

Melhor Montagem

Ave Maria de Pê Moreira

Melhor filme de Temática Afirmativa

Mostra Brasília – Prêmios do Júri Oficial

24º Troféu Câmara Legislativa

O Pastor e o Guerrilheiro de José Eduardo Belmonte

Melhor longa-metragem (prêmio de R$100.000,00)

Levante pela Terra de Marcelo Costa (Cuhexê Krahô)

Melhor curta-metragem (prêmio de R$30.000,00)

Thiago Foresti, por Manual da Pós-verdade

Melhor direção (prêmio de R$12.000,00)

Wellington Abreu, por Manual da Pós-verdade

Melhor ator (prêmio de R$6.000,00)

Issamar Meguerditchian, por Desamor

Melhor atriz (prêmio de R$6.000,00)

Juliana Corso, por Virada de Jogo

Melhor roteiro (prêmio de R$6.000,00)

Elder Miranda Jr. por Manual da Pós-verdade

Melhor fotografia (prêmio de R$6.000,00)

Augusto Borges, Nathalya Brum e Douglas Queiroz, por Plutão não é tão longe daqui

Melhor montagem (prêmio de R$6.000,00)

Nadine Diel, por Manual da Pós-verdade

Melhor direção de arte (prêmio de R$6.000,00)

Olivia Hernández, por O Pastor e o Guerrilheiro

Melhor edição de som (prêmio de R$6.000,00)

Sascha Kratzer, por Capitão Astúcia

Melhor trilha sonora (prêmio de R$6.000,00)

Mostra Brasília – Prêmios do Júri Popular

24º Troféu Câmara Legislativa

Capitão Astúcia, do diretor Filipe Gontijo

Melhor longa-metragem (prêmio de R$ 40.000,00)

Desamor, do diretor Herlon Kremer

Melhor curta-metragem (prêmio de R$ 10.000,00)

Mostra Brasília – Menções Honrosas do Júri Oficial

À Ivan Presença e Chiquinho da UnB, personagens do longa Profissão Livreiro, de Pedro Lacerda

Menção honrosa do júri

Ao curta-metragem Super-heróis

Menção honrosa do júri

Prêmios Especiais

Prêmio Zózimo Bulbul

Concedido em parceria com a Apan – Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro e o Centro Afrocarioca de Cinema, para o curta e o longa-metragem que tenha como horizonte o corpo negro na frente e por trás das câmeras, e a inovação estética e narrativa na abordagem das subjetividades negras. Em 2022, o júri do prêmio Zózimo Bulbul foi composto pela realizadora cuiabana Paula Dias, a produtora audiovisual do DF Adriana Gomes e o coordenador de projetos do Centro AfroCarioca Vitor José.

Mato Seco em Chamas, de Adirley Queirós e Joana Pimenta

Prêmio Zózimo Bulbul de Melhor longa-metragem

Calunga Maior de Thiago Costa

Prêmio Zózimo Bulbul de Melhor curta-metragem

Prêmio Marco Antônio Guimarães

Concedido pelo Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro (CPCB) ao filme que melhor utiliza material de memória, pesquisa e arquivos do cinema brasileiro.

Diálogos com Ruth de Souza de Juliana Vicente

Prêmio Marco Antônio Guimarães

Prêmio Canal Brasil de Curtas

Cessão de um Prêmio de Aquisição no valor de R$ 15 mil e o troféu Canal Brasil, ao Melhor Filme de curta-metragem selecionado pelo júri Canal Brasil.

Nossos passos seguirão os seus… de Uilton Oliveira

Prêmio Canal Brasil de Curtas

Prêmio Abraccine

Oferecido pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema nas categorias melhor longa-metragem e melhor curta-metragem.

Mato Seco em Chamas, de Adirley Queirós e Joana Pimenta

Prêmio Abraccine de Melhor longa-metragem

Calunga Maior de Thiago Costa

Prêmio Abraccine de Melhor curta-metragem

Troféu Saruê

Conferido pela equipe de cultura do jornal Correio Braziliense ao melhor momento do festival.

À memória do indigenista Bruno Pereira, documentado em A Invenção do Outro, de Bruno Jorge

Troféu Saruê

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