Medusa, o grito feminista contra o terror neopentecostal


Vi Medusa o ano passado e o revi agora. O texto tem as marcas dessa revisão.

Os homens formam milícias e as mulheres não ficam atrás. Saem às ruas para agredir outras mulheres, tidas como desviantes da moral e dos bons costumes. Eles e elas estão em Medusa, distopia neopentecostal imaginada por Anita Rocha da Silveira, participante da Quinzena dos Realizadores no Festival de Cannes.

É um filme duro, imaginativo, consistente. Mostra, sem desviar o olhar, a estrada perdida em que nos metemos, sem saída à vista. A de um moralismo exorbitante, que tenta impor à sociedade inteira valores que pertencem apenas a uma comunidade religiosa.

A protagonista dessa encenação apocalíptica é a jovem Mariana (Mari Oliveira), enviada para uma escola onde as moças aprendem a ser boas esposas, virtuosas, recatadas e do lar. A fé em Jesus é personificada por um pastor carismático (Thiago Fragoso), que exorciza possíveis desvios demoníacos.

Circula, entre as moças, a história, ou lenda urbana de uma mulher pecadora (Bruna Linzmeyer) que teve o rosto desfigurado por ação de uma corajosa militante evangélica, que assim procedeu para banir o pecado da comunidade.

Muito do Brasil contemporâneo entra na mistura dessa ficção demasiado próxima da realidade. A comunidade fecha-se em si. “Não confie nas pessoas de fora”, recomenda-se. “Não se informem por fontes duvidosas, como a imprensa ou a TV.” Tudo o que for preciso saber será fornecido pela própria comunidade, assim as informações serão sadias e corretas. De acordo com o Evangelho. Ou com os neoevangelistas.

Se a comunidade deve fechar-se em si não pode negligenciar suas tarefas de evangelização e fiscalização do restante da sociedade. Daí as incursões noturnas à caça de pecadores e, sobretudo, de pecadoras, que deverão ser punidas pelo desvio, desestimuladas de perseverar no mal e banidas. No limite, poderão ser desfiguradas, pois este é o castigo e preço imposto à beleza e ao desejo a ela associado. Coisa do demônio. As meninas atacam mascaradas. Uma espécie de Ku Klux Klan feminina, de combate àquilo que existe de mais subversivo no ser humano – o desejo. No entanto, o desejo não existe apenas no corpo das “pecadoras”. Instala-se também no corpo das cruzadas, e dessa contradição – a de padecer exatamente aquilo que se combate -, nasce a dialética da obra.

No centro da trama, há esse desejo de impor a moral própria ao conjunto da sociedade. Mais uma alusão direta: lembre-se de que no começo da gestão bolsonarista, a ministra Damares pronunciou esta frase singela: “Chegou a hora de a igreja governar”. Ou seja, chegou a hora de impor valores não apenas ao seu rebanho, mas aos infiéis que compõem o restante da sociedade. Estes têm de ser submetidos. Ou perecer.

O filme desdobra-se em thriller de descoberta quando Mariana segue a pista da tal mulher desfigurada. Por quê? Porque, provavelmente, está nela a pista desse sistema opressivo que a todas atinge. Sim, todas, porque o que se discute, no fundo, é a opressão feminina, possibilitada por um machismo intolerável. E tão mais intolerável quando praticado por mulheres. Daí não se estranhe a chegada ao paroxismo e a um grito primal libertador.

É quando o filme, de distópico, passa a utópico. Supõe que a sobrecarga da repressão provoca a explosão da bolha. De maneira incontrolável, e com consequências desconhecidas.

Medusa coloca-se ao lado de filmes recentes que discutem o peso das crenças evangélicas sobre a sociedade e a cultura do país, como Azougue Nazaré (2018), de Tiago Melo, e Divino Amor (2019), de Gabriel Mascaro.

Ao afrontar o fundamentalismo religioso e sua sede de poder, Medusa coloca-se como filme político por definição. Muito bom nos seus dois terços iniciais, afrouxa um pouco a tensão em seu terço final. Mesmo assim é acima da média. E, claro, muito necessário nesses tempos em que as forças da reação não descansam e não dormem.

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