O Brasil ainda não merece a Bossa Nova


Bossa Nova 60 anos

Todo vento soprava a favor do Brasil naquele final de década de 1950. Um governo progressista, conquistas esportivas internacionais no futebol, no boxe, no tênis, uma indústria automobilística nascente, uma nova capital sendo construída no meio do imenso território do país. O gigante despertara. E, além de forte, parecia elegante, gentil e inteligente. Faltava uma trilha sonora e ela ganhou forma naquele 10 de julho de 1958, 60 anos atrás, quando um cantor chamado João Gilberto gravou no estúdio da Odeon um disco em 78 rotações. As canções eram Chega de Saudade (Tom Jobim e Vinícius de Moraes) de um lado e Bim Bom, do próprio João Gilberto, no outro. Esta é a certidão de nascimento da Bossa Nova, expressão artística que só receberia nome próprio tempos depois.

O fato é que muitos jovens músicos no Rio de Janeiro havia anos buscavam novos caminhos para a música brasileira. Gostavam de jazz e ouviam os discos importados sem cessar. Para citar apenas um exemplo, Menescal (entre outros) era devoto de um álbum chamado Julie Is Her Name, gravado em 1955, com a deusa Julie London e sua voz de travesseiro acompanhada pelo guitarrista Barney Kessel e pelo baixista Ray Leatherwood. Julie interpretando Cry me a River é devastadora, mas os músicos só tinham ouvidos para os acordes gerados pela guitarra de Kessel. O mapa da mina estava ali.

Faltava o ritmo e a sua invenção remonta ao mito. De acordo com ele, um João Gilberto meio sem rumo teria se hospedado na casa de sua irmã, em Diamantina, e tocava violão o dia inteiro, sem parar. Sua predileção era ensaiar no banheiro, o que causava perturbação na ordem da casa. Mas era lá, entre ladrilhos antigos, que João encontrava a ressonância ideal para seu violão e sua voz. Nesse ambiente pouco nobre nasceu a famosa “batida da Bossa Nova”, inventada por João Gilberto.

Quando ele voltou ao Rio, levou a base rítmica e interpretativa que serviria de leme à ainda oficialmente não nascida Bossa Nova. O maestro Gilberto Mendes (em artigo no livro Balanço da Bossa, organizado por Augusto de Campos) coloca a “batida” como linha evolutiva do samba: “…João Gilberto isolou e remontou certos elementos para a criação de sua famosa “batida” de violão, nos acordes, característica da marcação básica da Bossa Nova”. Em depoimento a Zuza Homem de Mello (no livro Eis Aqui os Bossa-Nova), Baden Powell diz que é como se de uma Escola de Samba inteira, João ficasse apenas com os tamborins.

São alterações harmônicas, rítmicas e do canto “pequeno”, associado mais à fala que ao dó de peito que fazem a estrutura básica da Bossa Nova.

Estabelecidas suas bases, a Bossa se desenvolveu com intérpretes e compositores geniais, entre os quais sobressai Tom Jobim. Foi a trilha sonora de uma geração (ou mais de uma), ganhou mundo e hoje é mais tocada lá fora do que aqui. Em seu denso ensaio João Gilberto e o Projeto Utópico da Bossa Nova, o crítico Lorenzo Mammì define a Bossa como “promessa de felicidade”. Caetano Veloso diz que o Brasil ainda precisa merecer a Bossa Nova.

Já se disse que uma música daquele tipo – sofisticada e simples ao mesmo tempo, elegante e inovadora, síntese de raízes nacionais e influências estrangeiras de alto nível (o jazz e a melhor música norte-americana, além dos impressionistas franceses Debussy e Ravel) – só poderia ter nascido na época otimista de Juscelino Kubitschek. É tentador, mas complicado, praticar esse tipo de sociologia das artes, em que estas expressariam diretamente o momento histórico. Mas, em termos, e com os devidos cuidados, a ligação pode ser estabelecida. Ou alguém aí imagina alguma coisa parecida com a Bossa Nova sendo feita no Brasil de hoje?

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