Vitória 2022: Germino Pétalas no Asfalto e Bete Mendes em noite de Lula-lá


VITÓRIA – Em filme anterior, Limiar, o casal Coraci Ruiz e Julio Matos acompanha o processo de transição de gênero da filha adolescente, de Violeta a Noah. Agora, em Germino Pétalas no Asfalto, retrata o desenvolvimento do processo de transição de Jack. 

Nesse segundo filme, não se trata apenas de registrar os avanços no processos e redesignação, com administração de hormônios, troca de documentos de identificação e possíveis cirurgias. É tudo isso, e mais um “detalhe”, pois está acontecendo num tempo árduo – com a eleição de Bolsonaro, conservadorismo medieval à toda e, por cima, uma pandemia para isolar as pessoas. Justo no momento em que estas precisavam estar mais juntas do que nunca.

No entanto, e essa é a beleza do filme, nem mesmo essas circunstâncias tão negativas são capazes de anular as relações de amizade e de solidariedade que dão liga a grupos discriminados da sociedade. Ouvindo, vendo e sentindo empatia por essas pessoas que não se deixam abater pelo clima hostil de intolerância, sentimos um pouco de esperança na humanidade.

Passando por essa história densa, o filme às vezes é até lírico – mesmo visualmente, com sutis intervenções de animação no registro das imagens. São as pétalas no asfalto de que fala o título. Certamente em diálogo com o poema de Drummond da flor que rompe o cimento duro da cidade e, numa fresta, aflora e flora.

Bete Mendes/Foto de Selmy Yassuda[/caption]

Bete Mendes. Foi muito boa a entrevista coletiva da atriz Bete Mendes, homenageada do ano no Festival de Vitória. Com inteligência, lucidez e desenvoltura, Bete falou de suas origens no teatro, sua grande participação na TV e no cinema, no qual, talvez, o ponto alto tenha sido em Eles Não Usam Black-tie, de Gianfrancesco Guarnieri, dirigido por Leon Hirszman. Falou também do seu ativo engajamento político na resistência da ditadura. Foi presa, torturada durante os anos de chumbo. Elegeu-se deputada pelo PT. À noite, no Centro Cultural SESC Glória, onde acontecem as sessões do festival, foi aclamada. Sobretudo quando convidou o público a votar em Lula dia 2 de outubro e virar esta página infeliz da nossa história já no primeiro turno. Foi uma noite de Lula-lá.

Curtas

No bom programa de curtas, o delicado Hospital de Brinquedos (CE), de Georgina Castro, com a garota que cuida das bonecas junto da avó. Quando esta fica doente, a menina tem de se virar sozinha, o que é um sutil aceno para a chegada das responsabilidades em meio à inocência da infância. Na contraluz, a questão da negritude, bastante presente no programa de ontem à noite.

Como Respirar Fora d’água (SP), de Júlia Fávero e Victoria Negreiros. História de uma nadadora que volta para casa à noite e é abordada de maneira truculenta. Queixa-se ao pai, que é policial, e este tenta colocar panos quentes. Em questão, a violência urbana, a negritude e também a homoafetividade, temas costurados de maneira nada óbvia.

Orixás Center (BA), de Mayara Ferrão, com quatro quadros de narrativas dos Orixás, com performances, música, moda e dança, mesclando tradição e arquétipos das religiões de matriz afro-brasileiras – perseguidas hoje pela intolerância neopentecostal.

Fantasma Neon (RJ), de Leonardo Martinelli. Filme já apresentado em Gramado, onde ganhou um punhado de prêmios. Com justiça. Em estilo belo e original, faz uma espécie de mini-ópera, filme musical e bailado sobre os entregadores de aplicativos, modalidade mais precarizada do trabalho contemporâneo. Emociona e faz pensar.

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