Os Primeiros Soldados, os tempos da Aids, sem culpabilizações


Os Primeiros Soldados, de Rodrigo de Oliveira, começa com uma filmagem fake. Quer dizer, um filme dentro de um filme. Neste, vê-se um combatente solitário, perdido na selva, morrendo de fome, e que se diz disposto a cortar e comer uma parte do próprio corpo para sobreviver. É uma espécie de metáfora do que virá. Essa menção longínqua a Macunaíma em seu encontro com o Curupira, dá tom enganoso a essa primeira sequência.

Depois do início em tom de fantástico, entra-se na narrativa mais realista em que o jovem Suzano (Johnny Massaro) está de volta de uma temporada na França e se reencontra com sua irmã (Clara Choveaux), uma enfermeira. Estamos em 1983 e em Vitória, no Espírito Santo.

Suzano sente algo estranho acontecendo em seu corpo. Junta-se a Rose (Renata Carvalho) e Humberto (Vitor Camilo), também doentes, vítimas desse invasor, que sequer tem nome definido, do qual se sabe pouco, a não ser que é fatal. Tentam uma cura (física e espiritual) no ambiente retirado de um sítio. E, se o sofrimento for demasiado, contam com um escape estratégico da rota da dor.

É possível que o espectador sinta certa estranheza ao mergulhar na narrativa – no sentido positivo, do “estranho” (Unheimlich) freudiano, que nos impacta, descentra e serve de estímulo à imaginação. Esse deslocamento da narrativa preserva o filme do que seria apenas a sofrida trajetória de seres condenados e lhe acrescenta outras camadas. Sentimos que há algo mais aí, latente, pulsando sob a superfície.

Certo, o filme leva em consideração o peso emocional que ronda os personagens em seu confronto com a expectativa da morte, num ambiente preconceituoso e pouco propenso à solidariedade. No entanto, em meio à dor, há a busca da alegria e da celebração. Vida confronta-se com a morte e, desse embate, vem-nos a sensação de um deslocamento tão desconfortável quanto necessário. Só assim avançamos no conhecimento e na empatia. Para progredir, é preciso abrir os olhos e tentar enxergar as coisas e pessoas de maneira menos convencional.

Esse me pareceu o sentido maior do filme, ao buscar o valor da vida em seu limite, evitando tanto a culpabilização quanto a autopiedade. Viver não é brincadeira, como expressam Mascaro, Choveaux e Renata Carvalho em particular. Esse filme de sentimentos, muito bem pensado em seus diálogos e mise-en-scène, nos conquista e nos traz para seu lado – de modo suave porém firme.

Em Ouro Preto, onde o filme foi apresentado na programação da 17a. Cine OP, o diretor Rodrigo de Oliveira disse que sua intenção fora fazer um filme que quebrasse a visão punitivista e que culpabiliza os portadores do vírus HIV. Em tempos de ascensão moralista, esse tipo de olhar é mais do que bem-vindo.

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